A curra de Schopenhauer

“Holy mother of God!”, exclamei de mim a mim mesmo, quando, baixando da boca ao balcão o cálix de aguardente, como a realçar meu espanto, vi assomar ao bar o filósofo defunto. Exibia sua titânica cabeleira de palhaço, que deveria ter ali, se mal não o julgo, uns dois metros de envergadura, talvez mais, pois que o cabelo chegava na passagem a lustrar o umbral do vastíssimo arco de entrada do botequim. E não só a cabeleira. Arthur Schopenhauer irrompeu como um Arrelia, como um Torresmo, como um Cocadinha tedesco e profissional, de gola larga, sapato imenso, e calça amarela brilhosa. Faltava-lhe o nariz vermelho, é certo; mas só e mais nada.

– Puta que o pariu, que calor! – bufou o filósofo, mandando o portuga descer um chope a zero kelvin.

Eu ali, romântico de alcaloide, num bar carioca do Largo do Machado, logo abri conversa, instando-o a discorrer sobre a vontade e a representação, mas Schopenhauer desestimulou-me peremptório. Demonstrou seu desgosto com mil e um caretalhaços, cacarejando como uma perdiz no cio, dando rodrigueanos arrancos de cachorro atropelado, maldizendo Gutemberg até a vigésima descendência por lhe permitir a difusão de ideias pretéritas. Cuspiu, soltou traques, espalmou no balcão, urrou para o céu; e eu – de chinela, pinga, camiseta rasgada, short do Vasco furado no sul e dente faltante – achei por siso não insistir.

– Vamos falar de política! – ordenou Schopenhauer, depois de virar o chope, limpar o bigode branco de escuma no punho largo da farda de palhaço, e solicitar um segundo ao portuga.

– Sim, senhor – obedeci.

– O Senhor está no céu, não fode. Eu agora larguei mão da filosofia e me atirei nos braços da doxa; quero mais é rosetar. Falemos de política. O que tu achas da Dilma?

– Bom, penso que o cabelo dela parece um capacete, não sei se isso convém a uma presidenta que…

– Exato! Um capacete! Uma amêndoa hipertrofiada talvez, um cocuruto de cajado, uma bola de boliche com quepe, não, não sei bem, quiçá uma quimera platinada, um suricato ruivo…

– Um Pitta do Lula?

– Um Pitta do Lula, bravo! – Schopenhauer ficou tão feliz com o meu palpite que virou o chope e o arrematou meu cálix com uma talagada, para depois continuar.

– E que dizes do Serra?

– Bem, doutor Schopenhauer…

– Doutor o caralho!

– Oh, me descurpe, seu Schopenhauer, isso não vai se repetir – eu baixava os olhos, apertava nos dedos as abas de um chapéu de palha invisível, arriado pela altura do peito. – Do Serra eu acho que ele tem uma cabeça de ovo, de modos que não sei igualmente se isso seria conveniente a um…

– Com efeito, cabeça de ovo! – Schopenhauer virou os olhos no delírio que me pareceu de crack mofado. – E o que mais me intriga nessa história é de onde vem a fábrica de meia-careca – completou, virando-se para o dono do bar: – Ô, portuga, desce outro!

– Meia-careca? O senhor me perdoe a ignorância; poderia me instruir sobre o tema?

– Meia-careca, porra! Não te lembras da última eleição, em que era permitido aquele outdoor expandido, para o político ficar com um cabeção maior, extrapolado; uma metade do rosto no espaço normal do outdoor, a outra metade, da testa pra cima, num hediondo avancê feito de madeirite?

– Acho que lembro…

– Ora bem, como o Serra não tem cabelo, a parte de cima do avancê era só um meio-ovo careca cor de pele. Dava calafrio e dava engulho. Mas queria muito saber qual é essa fábrica que faz meio-ovo de pele…

– Puxa, muito interessante, dout… seu Schopenhauer – e, desta feita, eu pro Manuel – Ô, portuga, pinga mais uma aqui, véi.

– Por isso te digo, guri, que essas são as coisas que muito amiúde me assombram a mente lá no céu… Mas sabes o que acontece a todo político depois que morre, não? Digo, todo político; sem exceção ou cláusula de barreira.

– Não. O quê?

– Deus os transforma em cabras, para sempre; cabras com nervos desencapados, ultrassensíveis. E os coloca num curral apertadíssimo, condenado eternamente à mais funda e fria escuridão. As cercas do curral são farpadas e eletrificadas; os acidentes, como podes imaginar, são inevitáveis e frequentes. Então, ficam lá, balindo em desespero, tomando descargas tão pungentes como só Deus pode conceber, obrigados a comer e a beber, como único pasto e linfa, as bostas e os mijos uns dos outros.

Schopenhauer, naquele momento, deixou-se exibir por um milissegundo a famosa carranca terrífica, porém mais do que logo a desfez. Rasgou um riso bestial, escoltado pelos dois flancos de sua infinita cabeleira de palhaço, enquanto ritmava as ancas em vai-e-vem, como na curra a um político imaginário.

Eu, de mim, confesso que folguei à larga em saber o destino final dos homens públicos, não posso mentir. E passamos o resto da tarde assim, eu e o filósofo, rindo como umas bestas satisfeitíssimas, bebendo num ritmo que fazia o portuga suar. Foi lindo.

(Conto escrito em 2010)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s