A vingança dos Sith

O irônico é que na escola, na época do primeiro filme, o chamavam de Boba Fett. Era um trocadilho infame sobre “o bobo que fede”, já que ele tinha mau hálito. Tinha bafo nosso amigo, coitado, e a turma em questão era fã precoce de Star Wars. Precoce porque tinham apenas 13 anos, e era o ano de 1979. Como disse, faz tempo.

Boba Fett se chamava Paulo. Na verdade, tinha o nome de Paulo dos Santos Madeira Júnior. Mais tarde, já no colegial, ficaria famoso como Paulo Punheta. Mas estamos em 2005, e agora Punha Júnior, o inglório Boba Fett, está numa fila para assistir Episódio III, a Vingança dos Sith. Absolutamente chapado de maconha, aliás, porque fumou uma base a caminho do shopping.

Em volta, o mar de adolescentes, mais alguns aposentados, desempregados, frilas e desocupados. Boba sente uma agulhada de compaixão pelos guris ao redor. Ele sabe, ele os vê. Vivem aquela bobagem de se mostrarem expertos em Star Wars, se orgulham de citar segundidades menos óbvias da saga. Querem porque querem se dizer ninjas da nerdice, suspiram por Leia, a tia que era gatinha em 77. O combo todo.

Madeira Júnior ali, com aquela dor carcomida no peito, roído de compaixão pelos guris e por si mesmo. Se sente culpado e condoído. Com sua vida idiota, com seus 39 anos, farto de seus apelidos, farto do onanismo, com os dentes fodidos de tanto chupar halls preto, estacionado na fila para ver Episódio III.

Os jovens só querem avançar, reclamam da fila que ainda não havia sido liberada. Paulo Punha, num êxtase sado-budista, cagado com a cabacice dos moleques, se entende sabedor das ways of the Force. A fila anda, loucura. Velho Punha de pipoca XXXL na mão.

Lá vem o filme. E vem tão mal amarrado quanto esta historinha idiota que estou escrevendo. O filme é diferente do que Punha imaginava. Episódio III lhe parece uma desgraceira sem sentido e sem porquê. Quer avisar ao mundo. Mas como?

Os moleques, na saída do cinema, lhe parecem androides duma mesma linha de montagem. Saem dizendo que acham o filme o máximo, que se marcar é o melhor de todos, tá ligado, velho. Paulo, ali no meio, imenso, grisalho, falido, ele berra enfim como um wookie enfurecido:

– Seus bostas! Esse filme é a coisa mais triste e deprimente que já se filmou!

Os moleques se voltam para Boba Fett com horror. Mas o shopping não é tolo, como Boba, e tem lá seus paranauês. O segurança vê Paulo Madeira gritando, saca o cassetete tal qual sabre de luz. Punha não desiste fácil. Berra com as veias no pescoço.

– Vocês não estão vendo? Esse Episódio III é igual a vida de vocês, essa gula troglodita de culpa, essa monstruosidade, esse guri Skywalker sem membros, fumegante e tostado, isso tudo, esse ego ridículo de vocês!

O segurança do shopping não tem dúvida. Parte pra cima do velho Punha, mói o filho da puta no cassetete de borracha, padrão Brasil. Paulo cai murcho como um Obi-Wan. Sob as borrachadas do storm trooper, ainda arruma força para gemer seu epitáfio,

– Escrevam aí, seus porras, seus curió do caralho! Esse filme é o mais deprimente e inverossímil da história! Quem nem a vida cagada de vocês!

Uma borrachada na têmpora foi o que salvou o dia dos adolescentes do shopping, já aflitos como um Hayden Christensen todo lanhado em Mustafar. Paulo, nosso bobo fedido, seria declarado morto logo depois.

Quanto ao segurança do shopping, este foi efusivamente elogiado pela chefia. Dias depois, promovido a Sith Júnior ao som da marcha imperial. Isso, essa mesma que você pensou agora. Fim da história.

(Conto escrito em 2005, e atualizado agora em 2021)

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