Confortável

A pobre da zona de conforto tem sido infamada pelas gentes. Eu, por mim, viveria nela. Ué. E queria que a entrada na zona de conforto fosse assim:

…..

É de manhã. Acordo na confortabilíssima poltrona da primeira classe do mais moderno e silencioso jato já construído. A mais linda das aeromoças sorri para mim e diz:

– Bom dia! O senhor entrou na sua zona de conforto! Tudo aquilo que o senhor chamava de mundo, de vida, tudo aquilo foi só um sonho ruim, que agora acabou.

– Puxa… obrigado. Você quer dizer que aquela história de crise, de terrorista, de bomba H, de mudança climática…

Ela abre um sorriso fantástico:

– Tudo um sonho ruim que acabou, bebê!

– Nem político existe?

– Nem político existe! Olha que maravilha! Pode ficar relaxado… Vou buscar uma champanhe para o senhor e já volto.

Nessa hora, percebo que posso beber de novo. E que meus pés já não são mais tortos, e que meus joelhos não são mais feitos de aveia, e que eu não preciso mais de óculos para enxergar, nem de remédio para viver, porque não sou mais um cara melancólico, e estou milagrosamente 15 quilos mais magro e 15 anos mais novo.

A aeromoça mais linda do planeta volta com o champanhe mais maravilhoso já produzido na terra. Começo a beber e sinto aquele delicioso relaxamento do álcool.

Olho em volta me sentindo bem como nunca me senti na vida. É quando vejo que, ali na fileira ao lado, está o Tatu, da Ilha da Fantasia, tomando um bourbon e comendo um podritos qualquer, que ele cata do pote com sua mão gordinha. Ele vira para mim e diz:

– E aí, fera? Sei que o voo é chato pra cacete, mas guenta aí que quando a gente chegar lá vai valer a pena de um jeito que você não consegue nem imaginar de tão bom que é. Cheers!

A aeromoça mais linda da história (que, a essa altura, já está a fim de mim) me entrega o menu, uma manta fofinha e um folder que traz escrito na capa: BEM-VINDO À SUA ZONA DE CONFORTO.

Abro o folder e fico pasmo em descobrir como minha vida será absurdamente confortável depois que eu pousar na Ilha da Fantasia (não posso contar para vocês porque assinei um termo de confidencialidade). O Tatu percebe o meu assombro e diz:

– Não falei, fera?

O comandante me cumprimenta pelo alto-falante da aeronave, manda mais uma garrafa de champanhe com os cumprimentos da casa.

A aeromoça mais linda do universo me conta que também está indo morar na Ilha, olha só que coincidência. O céu é de um azul de brigadeiro. E agora tenho certeza que da minha zona de conforto eu não saio nunca mais.

(Post publicado em 2017)

Eu, a moça e Tatu: loucura na aeronave

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