Detox

(Para o Marcelo Mirisola)

“We’re gonna eat you up”, me diz o rato, todo lordão inglês de casaca, estalando as patinhas na mesa. Faz um barulho que parece um assoviozinho, fic-fic, como se risse da minha sanidade pouca. Logo que cheguei à festa, tomei o que me ofereceram: um ácido, parece. Não conheço bem a nomenclatura. Esses pivetes chamam ácido de doce. Ou de bala, não sei. Não sou dessa época.

Tenho cinquenta e dois anos e mais nenhum amigo da minha idade. Conheço um povo esparso, todo mundo mais jovem: a meninada da academia, umas amizades de bar, essas coisas. A festa rola na casa de um finta chamado Fagner. O povo chama o cara de Fafá. E aqui eu estou por dois motivos. Primeiro, porque gosto de me drogar. Depois, porque vai vir a Ju, minha professora da academia.

A Ju tem vinte e oito anos. Mesmo eu podendo ser o abuelito dela, joguei a sorte ao contratar a moça como personal, durante um mês, com o pretexto de me preparar para a São Silvestre. Ahã. Um dia, a Ju fez um alongamento comigo, vai vendo. Toda mão, a gente se encontrava na porta da casa dela e dali saía correndo. Mas, naquele dia, ela me chamou para entrar porque estava atrasada. Disse que ainda queria terminar de dar um “alongão”. E que aproveitaria para me ensinar a fazer um suco “detox”. Vinte e oito anos, cara.

Só digo isto. No alongão, ela estava de yoga pants. E eu estava in love com o conceito de conforto dessa juventude. Mas a Ju me via como um cliente, só isso. “Quer mais suco?”, ela perguntava por educação. “Vou aceitar, sim, está uma delícia”, eu respondia, todo tiozão sabedor das social skills. Podia tomar um galão daquele suco com gosto de grama mijada, só para ver a Ju caminhar pela cozinha.

Bueno, mas agora a porra é que tem um rato em cima da mesa de centro da casa do Fafá. O roedor bretão de casaquinha e pincenê me avisa que eles, os peludos, jantarão a humanidade. “We’re gonna eat you up”. Doce ou bala? Whatever. Interessa que bateu.

A garrafa de cerveja long-neck na minha mão parece que respira, engorda-emagrece, refletindo verde a luz do sol da tarde. Tem um prato de carne impensável na minha frente, assada pelo Batata, o churrasqueiro de coque samurai, moleque da academia de uns vinte e cinco. O tonel de loiras de pescocinho verde está bufando de tão cheio, cerveja gelada nunca é demais. Cadê a Ju, porra?

Quando disse para ela que tinha quarenta e nove anos (dei um gambito da rainha, para cair na dezena de baixo), ela falou, “não parece”, e me deu um sorriso lindo. Quanto a mim, digamos que faço um estilinho ok, desquitadão do rock. Não cola muito. “Own, parece um dinossaurinho fofo!”. Mas eu muito me contenho. As lubricidades ficam bem escondidas nas ideias, sou bem visto pela moças. “Um tiozinho do bem”, diriam elas, tomando suco detox. Eu entendo e respeito.

O rato sobre a mesa lê o Gita para o Ganesha, que está enquadrado na parede do Fafá. O Batata pergunta se o idoso aqui quer maminha, eu rio do duplo sentido. “E a galera, Bata?” (Porra, como sou cafa!) “Ah, já tão vindo. A Ju mandou recado dizendo que foi comprar cerva e já vem”. Chega outro moleque, com maconhas. Tem uns vinte anos, de nome Gabriel, como metade dos meninos da idade dele.

Gabriel não sabe cochar um banza. Molecada do século passado sabia. Eu sei. Sou um mestre zen nessa arte. “Deixa que eu aperto, guri”, digo a ele, com ar de Rui Barbosa canábico. Conto a história da maconha da lata. Por que, meu deus? Canseira. Tenho três filhos, já tive meu quinhão. O moleque fica todo admirado da perfeição do banzai. Estendo para ele, que acende. Sabe de nada. Tenho dó do moleque. Vai se foder na loucura química, e se julga imortal, como todo guri de vinte anos.

Ácido, maconhota, cerveja. Cinquenta e dois anos, rapaz. Dá cinco minutos, a Ju chega, toda esvoaçante na minissaia. O vovozinho trinca os molares. Ela me dá dois beijinhos, porque é do Rio. “Deixa ver o que você trouxe”, eu digo, vasculhando com os dedos a sacola da loja do posto. Cato mais uma cerveja. O rato levanta os olhos do Gita e me censura em silêncio.

“Senta aqui, Ju, toma uma comigo”. Ela me lança um olhar compassivo, quase que de cuidadora de idoso. Diz que já senta, que antes vai “fazer xixi” e dar oi pro pessoal. Gabriel está rindo como um otário do meu lado, moleque idiota do caralho. A Ju sai do banheiro, e eu só olhando, olhando, podia olhar para sempre. Mas ela está tão excitada com a festa que nem nota meu olho em brasa.

Tenho uma espécie de Tourette de putaria na minha cabeça, é isso. Fico falando sacanagem para mim o tempo todo. Por quê? Porque a vida é um cu do tamanho dos quasares, amigo, e a gente tem que se distrair. Minha Tourette saliente é daquele tipo que faz a gente debruçar na janela do carro quando vê uma moça bonita na calçada. Ô lá em casa”, diz a Tourette, mas só eu escuto a voz dela.

A Tourette é muito minha, minha para mim mesmo. Para os outros (as outras), eu sou um tiozinho do bem. “Quero mais é rosetar”, diz minha Tourette, já me prevendo velho, velho mesmo, sentado ao sol com a salsicha mole no meio das pernas. “Sanskaras”, diz o rato, todo empertigadinho na sua leitura das escrituras.

Lá vem a Ju. Senta do meu lado, deusa, toda a história da gostosura mundial conjuminada numa só mulher. Bebemos a cerva. Ela diz que foi muito bom a galera se reunir para a “baladinha de fim de ano”. Mostro um filme de gatinho no celular. “Own, que fofo!” Falamos sobre gatos, puta assunto boçal.

“Gata, eu só quero te fazer mulher”, diz minha Tourette, bem baixinho no meu cérebro, porque quando apaixonada ela fica assim meio Wando. Ah, como eu queria explorar o que tem debaixo dessa sua saia… “Ai, tio, que tesão!”, sua Tourette safadinha diria para a minha. Ah, Juzinha Tourette, formosura das galáxias, amor da minha vida!

Mas, não, velho. Claro que não. Muito pitu para minha rede de arrasto furada. Ju tem mais o que fazer, se levanta para “fofocar com as meninas”. O Gabriel do meu lado, moleque infeliz da porra, está a meio caminho de vomitar no banheiro. O Batata parece que tem uma pelota de bosta de cavalo naquele coque dele. E o rato, sobre a mesa do Fafá, não crê que eu vá muito mais longe nessa vida.

Um suspiro com o peso de mais de cinco décadas mal vividas move meu diafragma ancião. Nada me resta. Finjo que não vejo minhas desilusões entornadas no chão da casa do Fafá e saio à francesa. Melhor.

Indo para o carro, ainda ouço o fic-fic do rato me chamando. Eu respondo: “Not today, bitch”. Saco a pistola no porta-luvas da caranga: “I’m the one who’s gonna eat you up!” Descarrego o pente no roedor, que morre com o nome de Rama nos lábios.

A mim, só me resta a estrada da vida, cínica, à frente. “Mete o pau”, diz a Tourette. E eu meto mesmo. Até o talo.

(Conto escrito em 2017 e atualizado em 2021)

Chegou a hora do evasée, fairlane 500, baby

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