“Não há nada fora do texto”

Meu dono é um francês chamado Derrida. Fosse ele aqui, me chamaria de “minha plúmbea máquina de escrever”. Se me premeditasse naquilo que prestes estou a revelar, diria troçando ser meu idioma “o desfaçatez”. Viria com a história de que até a máquina fala por símbolos, no ranger do inapreensível, na busca pela verdade adiada, no devir.

Encheu papéis para descrever-me, eu que escrevia a mim mesmo, já que nada é senão mente — algo que neste instante capto em minha abdução peirceana, pelo lume que adentra os vãos da cortina de placas fixas — justo agora que nem de um Carlos Sandro se careceria para entender a metalinguagem da máquina que batuca histórias sobre si mesma.

Na zona do agrião, no bafafá do bololô, no inglório dia do julgamento final dos pensadores, meu dono saberá que tudo lhe seria ainda mais assombroso. Ali, de frente ao deus, andando de lá para cá, choroso.

Com meu metal e meus semióticos botões de plástico apertados contra a pele da pança carnosa, ele verá uma estranha luz difusa nunca dantes notada, espalhando-se por tudo, nascendo do ponto para onde jamais havia voltado a vista. E perceberá o olho brilhante do fílmico projetor da realidade que nunca houve.

(Conto escrito em 2004)

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