Jack in the box

– Virioto, nos traga mais um trago, se nos faz favor. E vai rápido!

“Pois não”. Esta é a resposta que o garção do estabelecimento poderia ter estabelecido a Tibério, o tabelião. Mas não o fez. Primeiro porque o cliente não se chamava Tibério, segundo porque ele não era tabelião e, para entrar no terreno exclusivo das verdades, digamos que ao garção a palavra “tabelião” não significava nadica de tábua.

Para ele, tabelião era coisa da época do Nelson, vez em que o mundo era o Rio, e o Rio era composto por legiões de Palhares, todos eles casados com mulheres bem nos conformes do gosto da rapaziada, todas elas prevaricando em companhia dos filhos de tabeliões, em bairros, bairrinhos, corgotes e vielas do Rio. Coisas como Grajaú.

Pois bem. Era do tempo do Nelson ou quem sabe do Rosa, aquele que, amuntado no baio, cuspiu em todos os candidatos à ABL: “depois de mim, ninguém mais”.

De fato. O Rosa e seus modinhos de crocitar neologismos eram do peru. E o Rosa, pensando bem, bem que poderia ter nos contado dos barnabés de crachá nos peitos a dizer: tabelião. Mas não, só falava de capiauzinhos, dos pequenos e dos graúdos.

Enfim, o ponto a se deixar bem claro aqui é um só e é só este: o garção não sabia nem o nome nem a profissão do moço acolá. Donde preferiu emudecer.

Resignou-se a trazer mais um trago ao ex-possível tabelião, ao ex-provável Tibério e a seu companheiro, um homem gordo com cara de se chamar Elias. “Tibério e Elias, pois sim”, pensou o garção, “são uns bons duns filhos das putas esses dois aí. Onde já se viu sair com essas folganças? Vou picar-lhes as tripas”.

Como diria o Rosa, cão que beiça não grinfa, então o garção resolveu servi-los e pronto.

– Prontinho. A cerveja que o senhor pediu.

– Eu não pedi cerveja porra nenhuma. Pedi um trago. Não fode!

Se Virioto, o garção, fosse peitudo (de peito cabeludo), teria dito bem assim ao cara: “como não fode? Não fode o senhor! Você e seu amigo aí, tabeliões nojentos, enchendo a cara a noite toda que nem uns ursos bêbados. Vocês são bem uns Palhares do Nelson, suas mulheres saltitam por aí e há vários a lhes colher as tenras conas!”

Porém não disse, que não tinha peito nem cabelo para tanto. Tratou de tratá-los bem.

– Oh, me desculpe. Quando o senhor disse “quero mais um trago”, entendi que continuariam bebericando a cervejinha especial da casa, como, por sinal, estão fazendo há duas horas: só na brisca. Então, veja, seu…, como é seu nome?, pois então senhor Alberto, vocês estavam só na brita e o “mais um trago”, veja, o “mais um trago” me pareceu, senhor, pareceu-me que o senhor tinha sugerido uma nova e gélida e loura cervejinha especial da casa, o senhor entende, não entende?

– Bom, pro inferno. Traga aí duas caipirolas de vódega. E rapidinho, senão vai ter morte aqui.

– Pois não, seu Alberto.

– Seu Alberto é a puta que o pariu! Pra você é doutor Alberto.

– Tá certo, doutor Alberto. As caipirinhas num minutinho.

O garção volta esmagando as tripas com os músculos abdominais. Se pudesse, ah se pudesse, arrancaria o coração do pulha do Alberto a dentadas. Depois tirava foto da sangueira toda e mandava para mãe dele, só de raiva hereditária e consanguínea que sentia. Mas era um murchão, essa é que é a verdade. Ficou a fazer cera, fê-la enquanto pôde, mas teve de voltar com as duas caiporinhas amarelas ordenadas pelo Alberto e seu colega.

– Prontinho, doutor Alberto. Aqui estão as caipirolas.

– Demorou muito. Leva essa bosta embora que já deve ter azedado o limão. Traz a cevada especial da casa mesmo. E vai rápido, seu merda!

– Pois não, doutor… arf, arf…. pois… não… aaaahhh… VAI PRA PUTA QUE PARIU CORNO FILHO DA PUTA!!

A saraivada enlouquecida de perdigotos iracundos do velho Virioto esculhambou os alicerces do seu Alberto e amigo – que, na verdade, era um boneco de cera, pois Alberto era um doente mental e precisava andar com o companheiro imaginário. Os dois tiveram seus crânios explodidos pela fúria sísmica do cabra Virioto.

Foi assim a história.

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(verdade que contatei o Rosa tempos depois e ele me disse que aquilo, onde já se viu, não era final prum causo que se prezasse, que a história do boneco de cera era indecente, que pelo menos nas antigas não era assim, que já tinha sido demais o final do conto anterior, uma piadinha ridícula que só entenderia quem tivesse o disco do Caetano, e piririx e pororox, mas daí eu me emputeci e pedi pro médium encerrar a sessão, e foi câmbio-desligo… pu pu pu pu pu…)

(Conto escrito no começo dos anos 2000)

“Depois de mim, ninguém mais.”

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