Lúcia

(Este relato pessoal sobre minha amiga Lúcia foi publicado como post em 2017)

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Conheci a Lúcia em 1996. Tinha ido fazer minha segunda faculdade em Salvador. Formado em jornalismo, quis estudar psicologia na federal baiana. Não deu nada certo: larguei o curso ainda nos primeiros meses e fiquei perdido e sozinho numa cidade estranha. O semestre em Salvador teria sido péssimo, não tivesse sido ótimo – por causa da Lúcia.

Ela foi minha melhor “amiga mulher” nesta vida. Digo assim porque amizade entre homem e mulher nunca é coisa simples. Eu a conheci numa festa. Ela estava dançando, e eu cheguei junto porque me senti atraído por ela. Naquela noite, a gente deu uns beijos e trocou telefones. Depois, saímos outras vezes, como se estivéssemos de rolo, digamos. Acontece que nossa conversa era tão interessante, mas tão interessante, que a gente ficava falando sem parar e esquecia de namorar.

No fim da noite, a gente dava um beijo protocolar, quiçá um selinho, na hora de se despedir, porque aquilo, afinal, era um “encontro”, certo? Mas, desde o começo, o sentimento de amor parecia maior do que a atração. Nosso sentimento sempre foi o da mais pura amizade. Amigos, amigos mesmo.

A Lúcia me mostrou Salvador e além: Piatã, Rio Vermelho, Amaralina, Jardim de Alah, Itapuã, mas também Arembepe e Cachoeira, uma cidadezinha do Recôncavo. Foi lá o tira-teima do status do nosso relacionamento. Viajávamos juntos, supostamente como ficantes, hospedados no mesmo quarto. Era para a gente dormir juntos, só podia. Mas chegou a noite e nada. Me deu sono, deitei numa cama e dormi. Ela dormiu na outra. No dia seguinte, sem que nada precisasse ser dito, soubemos que éramos e seríamos sempre amigos, os melhores amigos do mundo.

Resolvida a questão romântica, estávamos liberados para curtir o que mais gostávamos de fazer juntos: conversar, e conversar, e conversar sem parar como dois loucos. Sobre tudo, mas sobretudo psicologia e cultura. Aprendi muita coisa com a Lúcia. Ela falava de Pierre Verger, Dante, Thomas Mann e, claro, falava muito de Freud. Ela era psicanalista. Das boas. Tinha capacidade de interpretar as coisas, as questões que eu tinha, minhas dúvidas e conflitos, aos 25 anos, uns dois anos mais novo que ela.

Outro dia, estava folheando meu velho caderno de viagem da época, e lá, numa página, eu havia escrito assim: “Lúcia diz que existe um ‘gozo’ nessa minha indefinição de vida”. Estava perdido, sem saber aonde ir e o que fazer, e ela, com sua visão de raio-x, me falava de uma coisa que só hoje, 21 anos depois, consigo entender: a de que existe um ganho torto em todo sintoma, um gozo doloroso que se repete de forma mortífera, por ser uma defesa neurótica contra a angústia de outra dor, uma dor primitiva que nos devora.

A amiga, enfim, era muita areia pro meu caminhãozinho. Ela me falava de Goethe, e eu pedia para ela ouvir Mutantes. Ela me ensinava iorubá, e eu era o maluco do rock, que gostava de beber e fumar. Éramos como a música da Legião: “ela fazia medicina e falava alemão, e ele ainda nas aulinhas de inglês”. Não exatamente assim – mas bem assim no fim das contas.

Seu raio-x se voltava sobre ela também. Foi a primeira pessoa que vi se autoanalisando sem piedade. Uma vez, a gente voltava de uma cerveja com maniçoba no Rio Vermelho, e ela encanou, a sério, que tinha um carro seguindo a gente, como se fossem agentes assassinos da KGB. O problema é que ela é quem estava ao volante, muito nervosa, tentando fugir do carro, e podia nos matar. Segurei no braço dela: “Calma, Lúcia, não tem por que o carro estar seguindo a gente! Encosta aí, que ele vai passar batido”.

Dito e feito. Encostamos, o carro passou, e ela enfim se acalmou. Me disse algo que repetiria outras vezes em sua autoanálises pelas noites baianas: “Olha como eu sou neurótica!” Eu ria e a consolava, porque também começara a me debruçar sobre minha própria loucura. Naquela dupla, ninguém era normal, e tudo bem que fosse assim.

Então, depois de um semestre inteiro conversando sem parar sobre todas as coisas do mundo, voltei para São Paulo…

Na época, entenda, não havia celular, nem rede social, nem câmera digital. Lamento demais não ter nenhuma foto dela de lembrança. Mas, naquele tempo, as pessoas nem e-mail tinham. O que a gente tinha era o telefone fixo da casa dos pais, mais nada. E os dois mil quilômetros entre São Paulo e Salvador eram distância suficiente para congelar uma amizade no tempo.

Ficamos sem nos falar por sete anos. Daí, lá por 2003, fui passar um par de dias em Salvador. Dei um jeito de achá-la, depois de muita peleja. A gente se encontrou rapidamente num bar lá no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. Tínhamos duas horinhas, se tanto, pouco para falar como antes. Ela contou que estava casada e tinha um filhinho ainda bebê. Me lembro de sentir o quanto ela amava o filho e, também, de quanto gostava do nome que havia escolhido para ele: Theo.

Mas logo deu a hora. Lúcia levantou para ir embora. Ainda agora consigo vê-la caminhando em direção ao carro, com a Basílica de Salvador ao fundo. Penso se guardei a cena na memória por ter percebido que aquela seria a última vez que a veria.

Bem, pule aí mais 14 anos no tempo. Em 2017, tomei vergonha na cara e fui finalmente estudar psicanálise. Quis contar para minha amiga a novidade. Sobretudo porque, ao fuçar minha biblioteca, havia achado um livro de psicologia comprado em Salvador, em 96. Na folha de rosto, havia um recadinho, da Lúcia para mim, escrito em alemão, porque ela era muito chique! Era o convite para tomarmos uma cerveja. Puxa, mas como encontrá-la tanto tempo depois? Só me lembrava do nome de solteira dela, mais nada.

Depois de procurar um bocado, achei seu perfil no facebook, que dizia que ela agora morava na Espanha. Achei condizente com o chique da amiga. Mandei o pedido de amizade e um recadinho, e nada. Ela não respondia. Dias se passaram. Continuei procurando, até achar uma ação judicial de espólio por morte. A morte dela!

Fui tomado por um tristeza tão grande que só consegui dormir com o dia claro. Fritando na cama, lembrava das nossas conversas, agora sabendo que elas não se repetiriam. Me culpei por não ter procurado por ela antes, por não ter visitado a Lúcia na Espanha, no hospital, onde fosse. Depois, uma prima dela me contaria que Lúcia havia morrido de câncer, fazia um ano, depois de embate doloroso com a doença.

Não pude me despedir de você, minha querida, e por isso lamento demais. Queria te contar muitas coisas. Queria te reencontrar, me sentar com você e conversar de novo sobre todas as coisas do mundo. E dizer que eu te amo. Fica em paz, amiga. Um beijo e até um dia, quem sabe.

O recado dela no meu livro (o Raul foi por minha conta): Olá, Adriano! Como vão as coisas? Que tal? Tive uma ideia: podemos tomar mais uma cerveja. Saudações, Lúcia.

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