A incrível ressurreição de Paulo Punheta

Que eu saiba não há templo hindu em São Paulo. Por isso, apelo ao Frans Shiva, aquele Frans Café da avenida Paulista que tem uma imagem de Shiva na parede. No último domingo, portanto, fui à cafeteria hindu pedir a Mahadeva que me ajudasse a ser uma pessoa menos idiota e esquisita, de preferência que me tornasse perfeito etc. O de sempre.

Enfim. Estou lá sorvendo meu capuccino, fazendo minhas súplicas ao senhor Shiva, quando rola um milagre. O finado Paulo Punheta, imenso e suado, aparece redivivo na porta do café. Recém-chegado do mundo dos mortos, Paulo Punha caminhava em minha direção com o dedo em riste:

– Vai tomar no cu, Quadrado! Que merda é aquela que você escreveu, cara?

– Que porra é essa? Você não tinha…

– Fala, porra!

– Ué, Boba, eu contei a história do jeito que você me pediu, a desgraça inverossímil do Skywalker e tal, o pessoal até me mandou uns e-mails…

– Eu pedi para você dizer que não seria possível alguém se sujeitar a virar, aspas, um frango lanhado, esquartejado e tostado, fecha aspas, sem ganhar nada em troca. Você não botou isso no texto!

A essa altura, como se imagina, o povo no Frans estupefato nos olhava. Constrangido, puxei o gordinho pelo braço, fazendo com que ele se sentasse na cadeira. Tentei explicar que minha história teve um leve toque de licença poética. Discorri sobre metalinguagem, citei Bakhtin, caprichei nos argumentos. Por fim, apelei:

– Você tem que ver, Punha, que eu sou escritor.

Nesse momento, ele soltou uma gargalhada monstruosa, cuspindo massa-podre no meu rosto. Quase engasgou com a quiche do Frans, dando pancadas na mesa para acompanhar o riso, se desbeiçando como um Jabba bêbado:

– Escritor, Quadrado? Haha! Cala a boca!

– Sério, porra! Eu inclusive…

– Bicho, esquece disso. Você é só um finta que publica umas merdas na internet, mais nada. Escritor… essa é boa!

E riu de novo. Punheta dava tapões nas minhas costas e rachava, curtindo a vingança por eu ter reescrito o texto dele.

Mas… como assim o texto dele? Essa história estava saindo fora de controle. Definitivamente tinha de fazer alguma coisa para pôr fim àquela palhaçada de personagens amotinadas no meu texto.

– Paulo Punha, meu velho, presta atenção. Não era pra acontecer nada disso na história. A sua história era só pra meter pau em Star Wars e te usar como alter ego pra exorcizar a obsessão por essa merda de saga mal contadae tal…

– Quadrado, para com essa trip de Star Wars, bicho! Quer mais o que, meu? Quer dizer que eu fui ressuscitado pelos midi-chlorians?

Pior que era verdade. Eu havia começado a história justamente pensando em falar sobre a ressurreição de Paulo Punheta, graças aos midi-chlorians, tcharanã. Envergonhado, não tive como segurar o impulso de destruir Paulo Punha Júnior em pleno Frans Shiva.

Berrei como um Tonton do mundo gelado de Hoth. Tomado pelo ódio contra o gordinho infame, preparei-me para abatê-lo com fúria. Mas Punheta, eu deveria ter desconfiado, era muito melhor treinado nos caminhos da Força…

Enfim. A última coisa que me lembro foi sentir a pancada de uma xícara de cappuccino na têmpora. Então, tudo se apagou. Não sei há quanto tempo, mas estou num lugar desconhecido, brumoso e surreal. Parece um cyber-café de Coruscant, sei lá. Um Frans Café de Mos Eisley quem sabe.

Sei que tem uns computadores para gente postar e uns bichos esquisitos em volta. E, ali no caixa, porra, será minha imaginação? Um velhote idêntico ao Alec Guinness… o que me faz pensar se talvez eu não tenha… oh, Deus…

(Post/conto de, sei lá, meados dos anos zero.)