Creche de Aves da Sô — Deixe seu animalzinho conosco e ganhe um descontão. São 10 anos de experiência na cria de aves nativas do Brasil e de fora. Nessa década, apenas um animalzinho acabou escapando e, infelizmente, acabou reciclado por um carcará. Mas, como ficou provado, a culpa foi de uma empresa terceirizada e não da nossa creche. Enfim, aqui é filé, os filhotes são alimentados um a um com colherinha anatômica e tudo mais. Vida boa e ave tranquila é o que você quer? Entre em contato e jogue um par ou ímpar sem compromisso. Os 50 primeiros que ligarem concorrerão a uma coelheira master da Coelhão Pet. Não fique de fora. Traga seu pássaro para ser criado por nossa equipe. São 10 anos de experiência e apenas uma ave perdida (por culpa da terceirizada). Indicando um amigo, você ganha uma tosa de asa da sua calopsita (atenção: não garante que o animal não consiga fugir). Tá esperando o quê? Ligue agora e concorra a um quilo de alpiste. Não perca.

Tudo é obra de Deus, sem dúvida. E de que isso me vale, uma vez que eu nada quero? O que Deus pode me dar ou tirar de mim? O que é meu é meu, e já era meu antes que Deus fosse. Claro que é uma coisinha minúscula, um grão de poeira: o sentido de ‘eu sou’, o fato de ser. Esse é o lugar que me é próprio, ninguém o deu a mim. A terra é minha, o que cresce nela é de Deus.

Nisargadatta Maharaj

As armas e os barões assinalados

– Por isso é que eu te digo que o texto vale por si.
– Vale por si como?
– Vale por si, fala por si. Ele cria significado além da intenção do autor, saca?
– Ou vai ver você que acha que cria e vê significado onde não tem.
– Isso. Mas, se eu vi significado, ele significou alguma coisa, porra.
– Mas não foi o que o autor quis dizer.
– E qual o problema?
– A viagem é sua, não é do autor.
– E daí? O texto vale por si, entendeu?
– E o autor serve pra quê?
– Ele é tipo uma antena de ideias possíveis.
– Não fala merda! Você acha que o cara não tem intenção no que escreve?
– Claro que tem, mas isso não vem ao caso.
– Ah, cala a boca!
– Tô te falando. O texto é qualquer coisa, e não é nenhuma em especial. Nem a coisa que autor quis que fosse.
– É o mundo das ideias, tipo?
– Tipo. As ideias potenciais usam o fulano como cavalo, entendeu?
– E nasce o bebezinho-texto?
– É!
– E a intenção do autor não vale merda nenhuma?
– Vale só como mote pra fazer o texto existir, depois ele se vira sozinho.
– Que nem aquele fantasma do filme do nenê?
– Isso, uma aparição, uma doideira livre, uma coisa qualquer.
– Tipo os Lusíadas?
– Exatamente. Tipo Taprobana.
– Que quer dizer Taprobana? Nunca entendi.
– Não sei. Pra mim parece nome de rango. Sei lá, uma tapioca, só que uma tapioca mourisca.
– Meu! Rolou um puta déjà-vu agora!
– Xi, deu pau na Matrix.

(Conto escrito em 2004)