As armas e os barões assinalados

– Por isso é que eu te digo que o texto vale por si.
– Vale por si como?
– Vale por si, fala por si. Ele cria significado além da intenção do autor, saca?
– Ou vai ver você que acha que cria e vê significado onde não tem.
– Isso. Mas, se eu vi significado, ele significou alguma coisa, porra.
– Mas não foi o que o autor quis dizer.
– E qual o problema?
– A viagem é sua, não é do autor.
– E daí? O texto vale por si, entendeu?
– E o autor serve pra quê?
– Ele é tipo uma antena de ideias possíveis.
– Não fala merda! Você acha que o cara não tem intenção no que escreve?
– Claro que tem, mas isso não vem ao caso.
– Ah, cala a boca!
– Tô te falando. O texto é qualquer coisa, e não é nenhuma em especial. Nem a coisa que autor quis que fosse.
– É o mundo das ideias, tipo?
– Tipo. As ideias potenciais usam o fulano como cavalo, entendeu?
– E nasce o bebezinho-texto?
– É!
– E a intenção do autor não vale merda nenhuma?
– Vale só como mote pra fazer o texto existir, depois ele se vira sozinho.
– Que nem aquele fantasma do filme do nenê?
– Isso, uma aparição, uma doideira livre, uma coisa qualquer.
– Tipo os Lusíadas?
– Exatamente. Tipo Taprobana.
– Que quer dizer Taprobana? Nunca entendi.
– Não sei. Pra mim parece nome de rango. Sei lá, uma tapioca, só que uma tapioca mourisca.
– Meu! Rolou um puta déjà-vu agora!
– Xi, deu pau na Matrix.

(Conto escrito em 2004)