Du weißt nichts, unschuldig?

Ok, então suingamos entre a ânsia pelo sentimento oceânico e o desejo de sermos diferentes. Tá bom, eu acho justo. Um projetinho heroico que fosse o de escrever “coisas bonitas” com vistas a “salvar o mundo” – digamos que este seja o causa sui de um amigo meu, não o meu – enfim, um projetinho assim buscaria o especialismo através do comércio deslavado do sentimentalismo praiano.

Não fosse isso, a alternativa para mim, digo, para o meu amigo, seria a de escrever uma novela com Nietzsche de persona principal, uma espécie de santo guerreiro contra o dragão da maldade. Veja bem, não seria exatamente o Nietzsche, mas o Belchior fazendo o papel de Nietzsche, como já expus certa feita. Mas imagine o seguinte: Belchior/Nietzsche teria um antagonista chamado magnífico-reitor Luiz Vago, kantiano de carteirinha. Doutor Vago, com o peito inflado tal qual pombo no cio, diria, por exemplo, assim:

– Os objetos em si de modo algum nos são conhecidos e os por nós denominados objetos externos não passam de meras representações da nossa sensibilidade, cuja forma é o espaço e cujo verdadeiro correlatum, contudo, isto é, a coisa em si mesma, não é nem pode ser conhecida com a mesma e pela qual também jamais se pergunta na experiência…

Nessa hora, interrompendo a peroração, Nietzsche entraria bêbado na sala e diria, “O Brasil está morto! Viva o Brasil!”. Do peito de pombo do magnífico reitor, sem que ele desejasse ou tivesse o mais vago controle, explodiria então o Compadre Washington, à guisa de alvissareiro daímôn, dizendo, “Assim você vai matar papai, viu?”

O sururu carnavalesco que daí adviria eu tenho preguiça de escrever agora como seria. Entenda apenas que Belchior, digo, Nietzsche andaria pelo Brasil todo desmascarando os ídolos de pés de barro do tal sentimentalismo praiano. O último deles seria eu próprio, digo, aquele amigo meu de quem já falávamos, e nós não teríamos saída que não fosse a de rendermo-nos ao tchan.

Toda a história, graças à preguiça, se desenrolaria muito desleixada e aceleradamente, como uma saga dos Buendía mal escrita à beça. Cento e oito personagens é um mínimo razoável a se esperar. E o epílogo seria tão borocoxô e antionda como este aqui, depois não diga que eu não avisei…

(Post de blogue da década de 10)

“Agora ficou fácil, todo mundo compreende”, filosofa Friedrich Nietzsche, no estúdio, durante a gravação do hit “Sabe de nada, inocente!”

Duplas caipiras

Pero Vaz & Missivista
Marsupial & Placentário
Mata Rato & Cangibrina
Ancilóstomo & Saginata
Paquete & Corrimento
Espaguete & Canudinho
Zé Formando & Paraninfo
Expoente & Al Quadrado
Regredido & Retardado
Verídico & Juramentado
Dá Um Tempo & Chegadílson

(Post de blogue de meados da década de 10)

Fade to black

Eu era aquariano até uns tempos atrás. Havia, no entanto, a precessão dos equinócios, de que ninguém me havia falado. Um belo dia, então, virei capricorniano, e nem faz mal, porque agora penso que posso dar certo no final (embora não me fie muito mais nas esferas).

Só que ainda há um restolho de condicionamento aquariano, a vontade de ter a máquina do tempo, por exemplo. E eu podia tê-la, só não sabia. Comprei um all star depois de duas ou três décadas – décadas longas, que curiosamente passaram tão rápido quanto a ultrapassagem que faço, na anhanguera, sobre um biarticulado infinito, cheio de cana e poeira.

Hoje saí andando por aí, com minha máquina do tempo, vendo projetado na ponta branca do tênis o passado distante, de quando andava com as galeras das franjas de sampa, pegando um ônibus vespertino, preguiçoso, com uma fita de cromo no bolso para gravar o ride the lightning do metallica.

Sempre houve sobre as costas dessa minha geração xis-maionese uma mochila cheia de banzo dos anos que não vivemos, a sombra dos hippies tristes. Longo suspiro. O mundo era lento, triste e bom. Todo mundo era ingênuo e jovem. E hoje meus amigos começam a morrer, num fade to black que não tem mais fim.

(Post de facebook, sei lá de quando, meados da década de 10)

To Boddah

Hoje, temos equinócio, eclipse e superlua. Para os esotéricos, banquete: “Há setenta e dois anjos na terra, é preciso decidir de que lado você vai ficar!”, disseram-me. Para os astrônomos, eventos previsíveis; entrementes, desavisados nem sabendo do tríplice episódio. Normal, está tudo certo. Não julgo mais.

Faz tempo venho cozinhando na cabeça a ideia de que o real é o que se pensa que seja, sendo a vida apenas uma massa plástica, tão indulgente quanto impertinente, a se deixar moldar sem resistência nem razão, aceitando refletir a verdade que se queira imaginar, de tal sorte que não há algo real em definitivo, mas muitas realidades funcionando simultaneamente.

Há anjos, de fato, a quem neles queira crer, e anjos são fantasia, todavia, a quem quer que assim creia ser. Não se deve procurar a verdade, pois a verdade é só reflexo dos pensamentos, e tudo há ou deixa de haver conforme o gosto do freguês, como um Gato de Schrödinger democrático, de tanga de crochê em Ipanema.

Talvez tua má vontade em crer no que digo te aparte da compreensão, então repito: os anjos existem mesmo, não como fantasia, não como “função psíquica”, mas como verdade verdadeira, como realidade dura — porém só para aqueles que neles creem, pois que, no universo do descrente, anjos simplesmente não se dão.

E, hoje, por razões ignoradas, ando pensando muito em Kurt Cobain. Aquela história de começar as canções de forma suave e depois descer o pau, vejo como a repetição da biografia de Cobain: alguém que nasceu para ser tranquilo, pena ter tido malditos nervos desencapados. Alguém que, nalgum ponto ali na infância, tomou uma cajadada da vida quando soube talvez da fatalidade da morte, quebrando-se o écran para sempre.

Tinha toda vocação para respirar em paz, o Cobain. Tudo o que ele queria era cantar a sério (e não com aquele sarcasmo dolorido a pedir socorro) a canção dos Youngbloods — não é à toa que ele pôs o nome da banda de “Nirvana” (e depois estourou os miolos).

Sou assim também, desarranjado, de écran partido, erratic moody baby, com a tanga de crochê toda farofada de areia e tatuí, aquela puta tristeza de foca tomando cajadada na cabeça, sujando a areia de sangue jovem. No, I don’t have a gun. Nem julgo mais.

A vida demora tanto que nunca acaba, meu amigo, não adianta, porque assim é como ela funciona no meu universo de modelar… e haja peito para um suspiro assim tão vasto, triste e resignado.

Só peço aos anjos que resgatem Cobain do vale desesperado, frio, úmido e cagado da nossa imaginação/realidade.

(Post publicado no facebook em 20/03/15)

Sonho n° 36

A máquina fazedora de sonhos

Sonho que estamos eu e minha mãe na ponte de Santa Clara, sobre o rio Mondego, em Coimbra.

Estou debruçado na grade de proteção da ponte, observando o leito do rio. Vejo uma caneta esferográfica boiando sobre as águas, descendo no fluxo do Mondego.

Faço um experimento para tentar puxar a caneta com a força da minha mente e, realmente, consigo. A caneta retrocede metro e meio contra o fluxo do rio. Paro de exercer o controle mental, e ela retoma o movimento rio abaixo.

Surge uma mulher que comenta sobre a caneta boiando. Viro para ela e digo:

— Esse é o peixe mais lindo de todos.

A mulher vê um belo passarinho, que passa voando pela gente. Para agradá-la, sigo o passarinho para fotografá-lo com o meu celular. Disparo a câmera várias vezes. Quando vou ver o resultado, há ali um filme, e não uma sequência de fotos, como se era de esperar.

Descubro que o Facebook desenvolveu uma função de criar sonhos, no sentido freudiano de realização de desejos. A ferramenta usa as fotos do celular para criar um sonho desejado pela pessoa.

No filme, o passarinho aparece em close-up e detalhes. A mulher surge também como personagem do filme, andando de esqui sobre o rio Mondego, acompanhada de um homem com quem já teve um caso amoroso.

Resolvo experimentar o novo recurso de sonhos da rede social, faço uma filmagem com minha câmera. Vou ver o resultado.

No filme, aparece um herói chamado Platonic Hill, cujos episódios são formados pela câmera do celular. Ele aparece num episódio em que há uma linda moça comilona.

Há umas 15 ou 20 pessoas reunidas em frente a uma enorme tela para ver o episódio em que o Platonic Hill vai salvar a comilona, que está para cair numa armadilha.

A moça está nadando numa piscina. Aparece o vilão. Ele solta cheiro de carne assada na água. Depois, coloca na piscina um boneco que parece ser feito de carne assada. Quando a comilona chega perto para comer, ela descobre que o boneco, na verdade, é feito de fezes.

A moça começa a passar mal e se debater de nojo na água. Mas Platonic Hill sai voando e mergulha na piscina para salvá-la com um kit médico para prestar os primeiros socorros.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 16/07/17)

Veja a tag #sonhos.

A ponte de Santa Clara, sobre o rio Mondego

Confortável

A pobre da zona de conforto tem sido infamada pelas gentes. Eu, por mim, viveria nela. Ué. E queria que a entrada na zona de conforto fosse assim:

…..

É de manhã. Acordo na confortabilíssima poltrona da primeira classe do mais moderno e silencioso jato já construído. A mais linda das aeromoças sorri para mim e diz:

– Bom dia! O senhor entrou na sua zona de conforto! Tudo aquilo que o senhor chamava de mundo, de vida, tudo aquilo foi só um sonho ruim, que agora acabou.

– Puxa… obrigado. Você quer dizer que aquela história de crise, de terrorista, de bomba H, de mudança climática…

Ela abre um sorriso fantástico:

– Tudo um sonho ruim que acabou, bebê!

– Nem político existe?

– Nem político existe! Olha que maravilha! Pode ficar relaxado… Vou buscar uma champanhe para o senhor e já volto.

Nessa hora, percebo que posso beber de novo. E que meus pés já não são mais tortos, e que meus joelhos não são mais feitos de aveia, e que eu não preciso mais de óculos para enxergar, nem de remédio para viver, porque não sou mais um cara melancólico, e estou milagrosamente 15 quilos mais magro e 15 anos mais novo.

A aeromoça mais linda do planeta volta com o champanhe mais maravilhoso já produzido na terra. Começo a beber e sinto aquele delicioso relaxamento do álcool.

Olho em volta me sentindo bem como nunca me senti na vida. É quando vejo que, ali na fileira ao lado, está o Tatu, da Ilha da Fantasia, tomando um bourbon e comendo um podritos qualquer, que ele cata do pote com sua mão gordinha. Ele vira para mim e diz:

– E aí, fera? Sei que o voo é chato pra cacete, mas guenta aí que quando a gente chegar lá vai valer a pena de um jeito que você não consegue nem imaginar de tão bom que é. Cheers!

A aeromoça mais linda da história (que, a essa altura, já está a fim de mim) me entrega o menu, uma manta fofinha e um folder que traz escrito na capa: BEM-VINDO À SUA ZONA DE CONFORTO.

Abro o folder e fico pasmo em descobrir como minha vida será absurdamente confortável depois que eu pousar na Ilha da Fantasia (não posso contar para vocês porque assinei um termo de confidencialidade). O Tatu percebe o meu assombro e diz:

– Não falei, fera?

O comandante me cumprimenta pelo alto-falante da aeronave, manda mais uma garrafa de champanhe com os cumprimentos da casa.

A aeromoça mais linda do universo me conta que também está indo morar na Ilha, olha só que coincidência. O céu é de um azul de brigadeiro. E agora tenho certeza que da minha zona de conforto eu não saio nunca mais.

(Post publicado em 2017)

Eu, a moça e Tatu: loucura na aeronave

O despertar da força

Eu ainda não vi o episódio 7, mas já imagino exatamente como seja…

Han Solo, na madureza, deixa de lado a pilantragem. Vai para uma prainha a muitos parsecs de distância e passa a viver da pesca artesanal. Sua esposa, Leia Organa, passa o dia na lida da casa, o mesmo vestidinho roto, o mesmo avental puído, toda gordota e entediada da vida. Ela frita postas de cação e chama o marido: “Ô, véio, o rancho tá servido”.

Quando o stormtrooper arrependido e a gatinha da galáxia o encontram, Han está justamente almoçando, acocorado na frente da casa. Mexe com os dedos calejados o fundo do prato de peixe, farinha e feijão, a barba grisalha por fazer, o queixo brilhando da gordura da comida. Eles lhe contam sobre um vilão novo, tal e coisa. Mas Han quase não fala. Sublinha o enfaro estalando a língua na busca por um fiapo de peixe preso nos dentes. Como todo homem vivido, sabe que a vida não vale a pena. Para se livrar dos visitantes, topa pegar a velha jangada e levar a dupla até o planeta pantanoso de Dagobah, onde Luke Skywalker então eremita.

No reencontro depois de tantos anos, os dois velhos amigos se cumprimentam num silêncio constrangido. Han descobre que ninguém vira herói impunemente: o lado sombrio uma hora acha o veio por onde se desopilar. Luke está bêbado da pinga que ele mesmo produz mofando algas do pântano. Vive assombrado por fantasminhas holográficos e pela imagem de seu pai, lanhado e fumegante sobre o magma endurecido de Mustafar. Traz fundas olheiras, os dentes desconjuntados e aquela belíssima pança de iogue, no que Mark Hamill faz jus e leva prêmio.

O velho Jedi vê que a gatinha da galáxia é bem gatinha mesmo, mas agora é tarde demais para ele. Envergonhado, Luke saca seu sabre de luz e comete um harakiri ali mesmo, na frente de toda a adolescência mundial, na plateia a comer combo de pipoca e coca zero…

Tipo isso.

(Post publicado em 2015)