Short Cuts

Pibu, o pacu, nasce roxinho-roxinho. Tem pulmões em vez de guelras e, pof, explode que nem baiacu. Chora o ribeirão.

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Eu, eu, eu, Riobaldo se fodeu – dizem os jagunços que não largam do pé do personagem de João Guimarães Rosa. Tudo porque Diadorim, no fim das contas, era uma belíssima duma Bruna Lombardi, e agora é tarde. De cócoras, num canto, mascando talo de capim, Riobaldo quer é matar o bardo de Cordisburgo. Quer gritar pra todo mundo que como escritor o Rosa era mesmo um excelente botânico, no máximo um lexicógrafo passável, aquele fio dua égua.

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O coração disparou quando ela o viu tomando cerveja no bar com os amigos: jeans velho, camiseta preta, dois brincos de argola na orelha direita, caixinha de Marlboro sobre a mesa. Já tinham se passado uns bons anos, e ele continuava igual, bonito e charmoso como sempre. Ela, diferente, mais gordinha, corte de cabelo de senhora comportada. Depois de se abraçarem e falarem juntos “quanto tempo”, não teve coragem de contar que era casada e tinha dois filhos pequenos, um deles doentinho em casa, esperando pelo remédio que ela tinha saído para comprar.

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Candinha faz que faz jus ao nome, mas qual. Usa os molequinhos da ONG Saci Nervoso para levar as pedras pros playboys da zona sul. Os moleques vão e voltam numa pernada só, e Candinha faz caixa pra comprar uma AK e pintá-la de ouro pra vingar a morte de Bem-Te-Vi.

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Madonna Ciccone chamou-se Rubens na próxima encarnação. Franco, probo, vasto e gordo, seu Rubens – o popular Rubinho da Vila Prudente – chegou rosado aos 60, sempre de camisa xadrez e boina de lã. Era em tudo um tradicionalista, quem diria. Na vitrola, só Cyndi Lauper.

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Zé Touro, o ganso-homem, coaxava igual peru. Galinhou-se pros lados da Vila Pavão e emburrou no pet shop. Lágrimas de crocodilo, olhos de lince, gogó de avestruz. Gostava de Roberto Carlos Braga – pô, bicho.

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Menino Malufinho brinca de fazer castelinho. Quinze graus de miopia aos 6 anos, contrata uns guris para a empreita. Com a areia licitada, daria pra fazer frente a Gizé. E ainda sobrava prum Colosso de Rodes.

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Vinha o portuga pelo deserto no pelo de um animal de raça, um dromedário mouco. Vinha meio bêbedo, sobre o pelo suado do animal. Contra o sol escaldante, olhava duro o pedaço de papel trazido na mão, papel que lhe indicava o sentido da sua vida. Era grego, porém, e dizia algo como: xpóvia. Ao pobre portuga, que Nuno se chamava, só restava amaldiçoar a má sorte do povo de Portugal.

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Adriano Quadrado, escritor anônimo, publica em seu blogue. Ninguém o lê.

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Na faculdade, o gĂŞnio incompreendido gosta de citar Baudelaire. Les Fleurs du Mal, no beicinho dir-lho-ia. Mas comeu mal uma coxa de frango no bar de LolĂł e agora castiga a porcelana do centro acadĂŞmico.

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Após cento e dois anos a serviço do escrete nacional, Mário Jorge Lobo Zagallo deixa esta terra sofrida. Seu corpo é empalhado por ordem de Ricardo Teixeira Neto. Eterniza-se daquele mesmo jeitinho: cabeleira branca, abrigo esportivo, rosto sanguíneo igual a um peru. Daí em diante, é colocado no banco em todos os jogos da seleção. Para todo sempre.

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Ramiro Pengaba vinha pela estrada ensolarada tal qual um monge mendicante de Benares. Tinha o peito cabeludo e vastíssimo, não temia a homem nem a bicho do além. Mas não sabia que seu mundo era pequeno. E os insetos que vagam pelos charcos têm poucas chances de alcançar o oceano.

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A única ideia que Vacacorso teve na vida foi um trocadilho de qualidade duvidosa: Estrogonhoque. Tanto que resolveu abrir um restaurante mezza-russo mezza-napolitano só para exibir em néon sua ideia solitária. Deu com os burros n’água, infelizmente. Creme de leite, carne de segunda e pelotas de batata com molho ao sugo resultavam numa mistura pra lá de infame.

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Cremildo, depois de enfileirar um estranhéguer, três porradinhas de cana com crush, cinco malt-nojentas, uma vódega e um cuígue, mais a medonha batida de coco com muito leite condensado, chega em casa em petição de miséria. Corre pro banheiro para vomitar, mas, quando baixa a cabeça, pressente a diarreia. Indeciso entre enfiar a cara ou a bunda na privada, opta por um movimento ousado. Entra no box, abre o chuveiro e explode lá dentro.

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O embate final entre os terráqueos e os klíngons se dá entre o paraibano Dirceu e o klíngon Zyxar. Trata-se de uma competição de insultos, quem ganhar leva o planeta. Zyxar bem que tenta, traz algumas maldades psicofágicas no bolso do colete, mas zoar um lagartão de colete era mesmo covardia.

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Ariosto, um nome, uma lenda. Gostava de risotos, vivia constipado. Aos quarenta, deixou o time dos solteirões para juntar seus trapos com os de Piabinha, a mulher-peixe. Uma história de amor como outra qualquer, que não mereceria mais do que poucas linhas num blogue obscuro.

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Sinhazinha, tão clarinha, corre pro escuro do mato para se encontrar com Egbá, se entregar ao corpo negro de Egbá. Suados, gemendo a poucos metros da janela do quarto de Dom Nuno Ramos Sardinha, que ressona na ilusão de que poderia controlar o mundo.

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Adriano Quadrado, escritor inaudito, escuta o barulhinho solitário do teclado beliscando o silêncio da casa cheia de goteiras. Escreve em vão.

(Post de blog publicado em 2003 e editado em 2021)

Sonho n° 32

Batendo nas portas do céu

Sonho que estou num bar. Vejo ali um sujeito simples de tudo. Caipira americano, inocente, simplĂŁo. Ele está ouvindo  Knockin’ on Heaven’s Door, do Dylan. Enquanto ouve, se acaba de chorar, muitĂ­ssimo emocionado: MĂŁe, agora Ă© tarde…

É uma gravação muito especial da música. Gravada na ponta dos cascos da emoção, gravação ao vivo, um take só. Nas pick-ups do bar, vejo um senhorzinho de calça brim desbotada. Ele parece equalizar a canção de modo a tirar o máximo de emoção do rapaz.

A música já vai pela metade, e o rapaz ali, naquela incrível liberação emocional: chora incrivelmente mesmo, com lágrimas gordas e copiosas.

Alguém comenta sobre o estranho caso do rapaz. Dizem que ele sempre escuta a música nesse ritual. E sempre para de chorar assim que a canção chega ao fim. Recompõe-se e volta ao jeito simplão, caipira americano de ser, em tudo previsível e controlado.

O que me espanta, no sonho, é que daquele tipo de homem eu jamais esperaria uma reação emocional tão desbragada.

Alguém me diz que ele chora pela própria canção, pela música em si, não por algo que aconteceu com ele. Chora a tristeza da balada. Chora como choraram seu pai e seu avô antes dele.

EntĂŁo, eu acordo.

(Sonho anotado em 11/07/17)

Veja a tag #sonhos.

A vingança dos Sith

O irônico é que na escola, na época do primeiro filme, o chamavam de Boba Fett. Era um trocadilho infame sobre “o bobo que fede”, já que ele tinha mau hálito. Tinha bafo nosso amigo, coitado, e a turma em questão era fã precoce de Star Wars. Precoce porque tinham apenas 13 anos, e era o ano de 1979. Como disse, faz tempo.

Boba Fett se chamava Paulo. Na verdade, tinha o nome de Paulo dos Santos Madeira Júnior. Mais tarde, já no colegial, ficaria famoso como Paulo Punheta. Mas estamos em 2005, e agora Punha Júnior, o inglório Boba Fett, está numa fila para assistir Episódio III, a Vingança dos Sith. Absolutamente chapado de maconha, aliás, porque fumou uma base a caminho do shopping.

Em volta, o mar de adolescentes, mais alguns aposentados, desempregados, frilas e desocupados. Boba sente uma agulhada de compaixĂŁo pelos guris ao redor. Ele sabe, ele os vĂŞ. Vivem aquela bobagem de se mostrarem expertos em Star Wars, se orgulham de citar segundidades menos Ăłbvias da saga. Querem porque querem se dizer ninjas da nerdice, suspiram por Leia, a tia que era gatinha em 77. O combo todo.

Madeira JĂşnior ali, com aquela dor carcomida no peito, roĂ­do de compaixĂŁo pelos guris e por si mesmo. Se sente culpado e condoĂ­do. Com sua vida idiota, com seus 39 anos, farto de seus apelidos, farto do onanismo, com os dentes fodidos de tanto chupar halls preto, estacionado na fila para ver EpisĂłdio III.

Os jovens só querem avançar, reclamam da fila que ainda não havia sido liberada. Paulo Punha, num êxtase sado-budista, cagado com a cabacice dos moleques, se entende sabedor das ways of the Force. A fila anda, loucura. Velho Punha de pipoca XXXL na mão.

Lá vem o filme. E vem tão mal amarrado quanto esta historinha idiota que estou escrevendo. O filme é diferente do que Punha imaginava. Episódio III lhe parece uma desgraceira sem sentido e sem porquê. Quer avisar ao mundo. Mas como?

Os moleques, na saída do cinema, lhe parecem androides duma mesma linha de montagem. Saem dizendo que acham o filme o máximo, que se marcar é o melhor de todos, tá ligado, velho. Paulo, ali no meio, imenso, grisalho, falido, ele berra enfim como um wookie enfurecido:

– Seus bostas! Esse filme é a coisa mais triste e deprimente que já se filmou!

Os moleques se voltam para Boba Fett com horror. Mas o shopping não é tolo, como Boba, e tem lá seus paranauês. O segurança vê Paulo Madeira gritando, saca o cassetete tal qual sabre de luz. Punha não desiste fácil. Berra com as veias no pescoço.

– Vocês não estão vendo? Esse Episódio III é igual a vida de vocês, essa gula troglodita de culpa, essa monstruosidade, esse guri Skywalker sem membros, fumegante e tostado, isso tudo, esse ego ridículo de vocês!

O segurança do shopping não tem dúvida. Parte pra cima do velho Punha, mói o filho da puta no cassetete de borracha, padrão Brasil. Paulo cai murcho como um Obi-Wan. Sob as borrachadas do storm trooper, ainda arruma força para gemer seu epitáfio,

– Escrevam aí, seus porras, seus curió do caralho! Esse filme é o mais deprimente e inverossímil da história! Quem nem a vida cagada de vocês!

Uma borrachada na têmpora foi o que salvou o dia dos adolescentes do shopping, já aflitos como um Hayden Christensen todo lanhado em Mustafar. Paulo, nosso bobo fedido, seria declarado morto logo depois.

Quanto ao segurança do shopping, este foi efusivamente elogiado pela chefia. Dias depois, promovido a Sith Júnior ao som da marcha imperial. Isso, essa mesma que você pensou agora. Fim da história.

(Conto escrito em 2005, e atualizado agora em 2021)

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A curra de Schopenhauer

“Holy mother of God!”, exclamei de mim a mim mesmo, quando, baixando da boca ao balcão o cálix de aguardente, como a realçar meu espanto, vi assomar ao bar o filósofo defunto.

Exibia sua titânica cabeleira de palhaço, que deveria ter ali, se mal não o julgo, uns dois metros de envergadura, talvez mais, pois que o cabelo chegava na passagem a lustrar o umbral do vastíssimo arco de entrada do botequim. E não só a cabeleira.

Arthur Schopenhauer irrompeu como um Arrelia, como um Torresmo, como um Cocadinha tedesco e profissional, de gola larga, sapato imenso, e calça amarela brilhosa. Faltava-lhe o nariz vermelho, é certo; mas só e mais nada.

– Puta que o pariu, que calor! – bufou o filósofo, mandando o portuga descer um chope a zero kelvin.

Eu ali, romântico de alcaloide, num bar carioca do Largo do Machado, logo abri conversa, instando-o a discorrer sobre a vontade e a representação, mas Schopenhauer desestimulou-me peremptório.

Demonstrou seu desgosto com mil e um caretalhaços, cacarejando como uma perdiz no cio, dando rodrigueanos arrancos de cachorro atropelado, maldizendo Gutemberg até a vigésima geração por lhe permitir a difusão de ideias pretéritas. Cuspiu, soltou traques, urrou para o céu. Eu – de chinela, pinga, camiseta rasgada, short do Vasco furado no sul e dente faltante – achei por siso não insistir.

– Vamos falar de política! – ordenou Schopenhauer, depois de virar o chope, limpar o bigode branco de escuma no punho largo da farda de palhaço, e solicitar um segundo ao portuga.

– Sim, senhor – obedeci.

– O Senhor está no céu, não fode. Eu agora larguei mão da filosofia e me atirei nos braços da doxa. Falemos de política. O que tu achas da Dilma?

– Bom, penso que o cabelo dela parece um capacete, não sei se isso convém a uma presidenta que…

– Exato! Um capacete! Uma amêndoa hipertrofiada talvez, um cocuruto de cajado, uma bola de boliche com quepe, não, não sei bem, quiçá um bulbo platinado, um suricato ruivo…

– Um Pitta do Lula?

– Um Pitta do Lula, bravo! – Schopenhauer ficou tão feliz com o meu palpite que virou o chope e o arrematou meu cálix com uma talagada, para depois continuar.

– E que dizes do Serra?

– Bem, doutor Schopenhauer…

– Doutor o caralho!

– Oh, me descurpe, seu Schopenhauer, isso não vai se repetir – eu baixava os olhos, apertava nos dedos as abas de um chapéu de palha invisível, arriado pela altura do peito. – Do Serra eu acho que ele tem uma cabeça de ovo, de modos que não sei igualmente se isso seria conveniente a um…

– Com efeito, cabeça de ovo! – Schopenhauer virou os olhos no delírio que me pareceu de crack mofado. – E o que mais me intriga nessa história é de onde vem a fábrica de meia-careca – completou, virando-se para o dono do bar: – Ô, portuga, desce outro!

– Meia-careca? O senhor me perdoe a ignorância; poderia me instruir sobre o tema?

– Meia-careca, porra! Não te lembras da última eleição, em que era permitido aquele outdoor expandido, para o político ficar com um cabeção maior, extrapolado; uma metade do rosto no espaço normal do outdoor, a outra metade, da testa pra cima, num hediondo avancê feito de madeirite?

– Acho que lembro…

– Ora bem, como o Serra não tem cabelo, a parte de cima do avancê era só um meio-ovo careca cor de pele. Dava calafrio e dava engulho. Mas queria muito saber qual é essa fábrica que faz meio-ovo de pele…

– Puxa, muito interessante, dout… seu Schopenhauer – e, desta feita, eu pro Manuel – Ô, portuga, pinga mais uma aqui, véi.

– Por isso te digo, guri, que essas são as coisas que muito amiúde me assombram a mente lá no céu… Mas sabes o que acontece a todo político depois que morre, não? Digo, todo político; sem exceção ou cláusula de barreira.

– Não. O quê?

– Deus os transforma em cabras, para sempre; cabras com nervos desencapados, ultrassensíveis. E os coloca num curral apertadíssimo, condenado eternamente à mais funda e fria escuridão. As cercas do curral são farpadas e eletrificadas; os acidentes, como podes imaginar, são inevitáveis e frequentes. Então, ficam lá, balindo em desespero, tomando descargas tão pungentes como só Deus pode conceber, obrigados a comer e a beber, como único pasto e linfa, as bostas e os mijos uns dos outros.

Schopenhauer, naquele momento, deixou-se exibir por um milissegundo a famosa carranca terrífica, porém mais do que logo a desfez. Rasgou um riso bestial, escoltado pelos dois flancos de sua infinita cabeleira de palhaço, enquanto ritmava as ancas em vai-e-vem, como na curra a um político imaginário.

Eu, de mim, confesso que folguei Ă  larga em saber o destino final dos homens pĂşblicos, nĂŁo posso mentir. E passamos o resto da tarde assim, eu e o filĂłsofo, rindo como umas bestas satisfeitĂ­ssimas, bebendo num ritmo que fazia o portuga suar. Foi lindo.

(Conto escrito em 2010)