Fade to black

Eu era aquariano até uns tempos atrás. Havia, no entanto, a precessão dos equinócios, de que ninguém me havia falado. Um belo dia, então, virei capricorniano, e nem faz mal, porque agora penso que posso dar certo no final (embora não me fie muito mais nas esferas).

Só que ainda há um restolho de condicionamento aquariano, a vontade de ter a máquina do tempo, por exemplo. E eu podia tê-la, só não sabia. Comprei um all star depois de duas ou três décadas – décadas longas, que curiosamente passaram tão rápido quanto a ultrapassagem que faço, na anhanguera, sobre um biarticulado infinito, cheio de cana e poeira.

Hoje saí andando por aí, com minha máquina do tempo, vendo projetado na ponta branca do tênis o passado distante, de quando andava com as galeras das franjas de sampa, pegando um ônibus vespertino, preguiçoso, com uma fita de cromo no bolso para gravar o ride the lightning do metallica.

Sempre houve sobre as costas dessa minha geração xis-maionese uma mochila cheia de banzo dos anos que não vivemos, a sombra dos hippies tristes. Longo suspiro. O mundo era lento, triste e bom. Todo mundo era ingênuo e jovem. E hoje meus amigos começam a morrer, num fade to black que não tem mais fim.

(Post de facebook, sei lá de quando, meados da década de 10)