Līlā

– Seu vedantista de meia tigela! – gritaram os moleques da pracinha de baixo de casa, enquanto atiravam pedras e mamonas estilingadas na minha pessoa.

Corri como pude e consegui despistá-los, apesar da corpulência adquirida com ovos de páscoa recentes. Ofegante, pedi água para uma senhorinha que varria a calçada. O nome dela era Dona Eudes, evangélica. Me convidou para entrar.

Quando mencionei Brahman, ela começou a falar lindamente sobre o Salvador. “Você não vê que o Senhor só quer o seu bem aqui na terra, moço?” Depois, fez uma daquelas preces emocionadas dos protestantes. Saí de lá mais tranquilo.

Passando em frente da igreja de Santa Ângela, resolvi entrar. Queria rever uma boa imagem de Maria de Nazaré que havia na igreja. Chegou o padre e se apresentou, perguntando se era devoto de Nossa Senhora. Disse a ele que não, imagina, era vedantista, ainda há pouco recitava os Upanishads e tal.

“Ahã”, fez o padre. Pôs a mão no meu ombro e falou: “Meu filho, pra que essa filosofia toda? O mundo é real, não está vendo? O que pode ser mais real do que este mundo criado pelo Pai?”

Eu, na hora, lembrei da mamonada que ardia na batata da perna esquerda. Me despedi, agradecido, e saí da igreja.

No caminho para casa, lembrei de um ponto da Umbanda que sempre me emocionou. Lembrei do Poverello, da Mãe Kāli. Lembrei de Shakyamuni, de Raimundo Irineu Serra, da casa de Eurípedes em Sacramento. Lembrei até que havia aprendido com os seres da floresta a assobiar para encontrar lenha.

Para alongar os pensamentos, quis passar na praça de cima de casa. E veja só. Sentado no banco da praça, estava o mestre em pessoa.

Cheguei de mansinho e me sentei ao lado dele, que cofiava a barba grisalha. Eu disse “Om Tat Sat”, à guisa de cumprimento, mas o mestre riu, debochado. O sol já encostava no horizonte, as maritacas faziam aquela zuada estridente.

O mestre se volta para mim: “Deixa eu lhe dizer uma coisa. Nitya e Līlā pertencem à mesma Realidade. Por isso, eu aceito tudo: o Absoluto, mas o Relativo também. Não fico dizendo que o mundo é ilusão. O devoto superior de Deus aceita tanto o Absoluto quanto o Relativo. É como a vaca que dá rios de leite.”

Rio da comparação que ele faz. O mestre, então, se levanta. Em êxtase, olha para a nuvem de chuva que passa sobre nossas cabeças. Quero insistir com ele, mas já não tenho convicção de mais nada. Penso em citar o Vivekachudamani, só que a mamonada ainda arde na perna.

De repente, o mestre cai na gargalhada. Divertindo-se à beça, olha bem fundo nos meus olhos e fala, como se fosse um moleque da praça:

– Seu vedantista de meia tigela!

(Conto escrito c. 2016, editado em 2021)

Deixa as alma trabalhar

PS… 👇

Short Cuts

Pibu, o pacu, nasce roxinho-roxinho. Tem pulmões em vez de guelras e, pof, explode que nem baiacu. Chora o ribeirão.

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Eu, eu, eu, Riobaldo se fodeu – dizem os jagunços que não largam do pé do personagem de João Guimarães Rosa. Tudo porque Diadorim, no fim das contas, era uma belíssima duma Bruna Lombardi, e agora é tarde. De cócoras, num canto, mascando talo de capim, Riobaldo quer é matar o bardo de Cordisburgo. Quer gritar pra todo mundo que como escritor o Rosa era mesmo um excelente botânico, no máximo um lexicógrafo passável, aquele fio dua égua.

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O coração disparou quando ela o viu tomando cerveja no bar com os amigos: jeans velho, camiseta preta, dois brincos de argola na orelha direita, caixinha de Marlboro sobre a mesa. Já tinham se passado uns bons anos, e ele continuava igual, bonito e charmoso como sempre. Ela, diferente, mais gordinha, corte de cabelo de senhora comportada. Depois de se abraçarem e falarem juntos “quanto tempo”, não teve coragem de contar que era casada e tinha dois filhos pequenos, um deles doentinho em casa, esperando pelo remédio que ela tinha saído para comprar.

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Candinha faz que faz jus ao nome, mas qual. Usa os molequinhos da ONG Saci Nervoso para levar as pedras pros playboys da zona sul. Os moleques vão e voltam numa pernada só, e Candinha faz caixa pra comprar uma AK e pintá-la de ouro pra vingar a morte de Bem-Te-Vi.

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Madonna Ciccone chamou-se Rubens na próxima encarnação. Franco, probo, vasto e gordo, seu Rubens – o popular Rubinho da Vila Prudente – chegou rosado aos 60, sempre de camisa xadrez e boina de lã. Era em tudo um tradicionalista, quem diria. Na vitrola, só Cyndi Lauper.

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Zé Touro, o ganso-homem, coaxava igual peru. Galinhou-se pros lados da Vila Pavão e emburrou no pet shop. Lágrimas de crocodilo, olhos de lince, gogó de avestruz. Gostava de Roberto Carlos Braga – pô, bicho.

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Menino Malufinho brinca de fazer castelinho. Quinze graus de miopia aos 6 anos, contrata uns guris para a empreita. Com a areia licitada, daria pra fazer frente a Gizé. E ainda sobrava prum Colosso de Rodes.

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Vinha o portuga pelo deserto no pelo de um animal de raça, um dromedário mouco. Vinha meio bêbedo, sobre o pelo suado do animal. Contra o sol escaldante, olhava duro o pedaço de papel trazido na mão, papel que lhe indicava o sentido da sua vida. Era grego, porém, e dizia algo como: xpóvia. Ao pobre portuga, que Nuno se chamava, só restava amaldiçoar a má sorte do povo de Portugal.

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Adriano Quadrado, escritor anônimo, publica em seu blogue. Ninguém o lê.

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Na faculdade, o gênio incompreendido gosta de citar Baudelaire. Les Fleurs du Mal, no beicinho dir-lho-ia. Mas comeu mal uma coxa de frango no bar de Loló e agora castiga a porcelana do centro acadêmico.

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Após cento e dois anos a serviço do escrete nacional, Mário Jorge Lobo Zagallo deixa esta terra sofrida. Seu corpo é empalhado por ordem de Ricardo Teixeira Neto. Eterniza-se daquele mesmo jeitinho: cabeleira branca, abrigo esportivo, rosto sanguíneo igual a um peru. Daí em diante, é colocado no banco em todos os jogos da seleção. Para todo sempre.

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Ramiro Pengaba vinha pela estrada ensolarada tal qual um monge mendicante de Benares. Tinha o peito cabeludo e vastíssimo, não temia a homem nem a bicho do além. Mas não sabia que seu mundo era pequeno. E os insetos que vagam pelos charcos têm poucas chances de alcançar o oceano.

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A única ideia que Vacacorso teve na vida foi um trocadilho de qualidade duvidosa: Estrogonhoque. Tanto que resolveu abrir um restaurante mezza-russo mezza-napolitano só para exibir em néon sua ideia solitária. Deu com os burros n’água, infelizmente. Creme de leite, carne de segunda e pelotas de batata com molho ao sugo resultavam numa mistura pra lá de infame.

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Cremildo, depois de enfileirar um estranhéguer, três porradinhas de cana com crush, cinco malt-nojentas, uma vódega e um cuígue, mais a medonha batida de coco com muito leite condensado, chega em casa em petição de miséria. Corre pro banheiro para vomitar, mas, quando baixa a cabeça, pressente a diarreia. Indeciso entre enfiar a cara ou a bunda na privada, opta por um movimento ousado. Entra no box, abre o chuveiro e explode lá dentro.

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O embate final entre os terráqueos e os klíngons se dá entre o paraibano Dirceu e o klíngon Zyxar. Trata-se de uma competição de insultos, quem ganhar leva o planeta. Zyxar bem que tenta, traz algumas maldades psicofágicas no bolso do colete, mas zoar um lagartão de colete era mesmo covardia.

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Ariosto, um nome, uma lenda. Gostava de risotos, vivia constipado. Aos quarenta, deixou o time dos solteirões para juntar seus trapos com os de Piabinha, a mulher-peixe. Uma história de amor como outra qualquer, que não mereceria mais do que poucas linhas num blogue obscuro.

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Sinhazinha, tão clarinha, corre pro escuro do mato para se encontrar com Egbá, se entregar ao corpo negro de Egbá. Suados, gemendo a poucos metros da janela do quarto de Dom Nuno Ramos Sardinha, que ressona na ilusão de que poderia controlar o mundo.

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Adriano Quadrado, escritor inaudito, escuta o barulhinho solitário do teclado beliscando o silêncio da casa cheia de goteiras. Escreve em vão.

(Post de blog publicado em 2003 e editado em 2021)