Encontro de Nietzsche e Sócrates no além

Depois de mais de um século se contorcendo no limbo, Friedrich Nietzsche enxerga luz forte penetrando na bruma e a segue.

A bruma é um túnel que acaba por dar numa praia. Não há nada além do perfeito: gaivotas, areia, sol e mar. Mas ao longe vê um velho com aspecto de ermitão, roupas surradas e cajado de apoio.

Nietzsche começa a andar na direção do velho, ajudado por outro cajado, este em sua mão direita. O sol lhe bate pelo flanco esquerdo, com a inclinação da luz da tarde, escorregando sobre a areia a sombra do magnífico bigode do filósofo.

O ermitão lhe responde o olhar, sorri e devolve a caminhada em direção a Nietzsche. De frente ao eremita, o invasor da praia anuncia:

– Salve. Sou Zaratustra, o sem-Deus. Poderias me informar onde estou?

– Salve, profeta. Bem te conheço, por certo mais do que imaginas.

– Sabes? Como poderias sabê-lo se ninguém, além de demônios escuros, encontro já há tanto tempo que nem sei.

– Há mais de cem anos, nobre Zaratustra. Pelo tempo de Gaia, há mais de cem anos…

– Como poderias sabê-lo?

– Como tu, também já fui chamado de sábio, apesar de ter tido a consciência sempre de que não o era.

– Qual é teu nome, anacoreta?

– Meu nome é Sócrates e sei quem tu és, Zaratustra.

– Sócrates? Então dizes que estou olhando para o assassino de Dionísio?

– Tuas teorias estavam erradas, Zaratustra. Tu não és ponte de nada a lugar algum, sinto dizer-te, malgrado possa ainda te contar mais sobre teu engano se assim o desejares.

– Cala-te, histrião! O que haveria a ser criado se deuses existissem? Se algo criei, tais teorias como dizes, elas são minhas e teu Deus está mesmo morto.

– Estás enganado, sinto muito.

– Sentes muito? Ah, a compaixão… o algoz do teu Deus! A mim mais te pareces com João Batista do que com Sócrates. A verdade é que sempre foste apenas um anão maldito, um servo precoce do profeta hebreu!

– Zaratustra, foste tu quem sempre quis a senda heróica do profeta salvador, não eu.

– Cala-te, fariseu!

– Observa e conclui que a verdade te é dita. A vontade de potência, a tua verrina sobre ela, esta sim é teu algoz, o instrumento de tortura que usaste para imolares a ti mesmo, como um asceta que calado se castiga na caverna. Tuas palavras te denunciam.

– Eu sou Zaratustra, o mais devoto de todos os que não acreditam em Deus! Não entendes que tudo era apenas ironia?

– Sim, era tanta que não sabes se a cobra tragou a própria cauda. Tu estás perdido, homem. E eu contigo, que és parte de mim. Somos pensamentos somente, vagas minúsculas em fugaz reflexo sobre o contínuo. Pensa com coragem. Tua imolação e tua tragédia, não era o que avidamente procuravas? Vê, mesmo com tanta dor não largaste o flagelo que trazes em tuas mãos.

Nesse momento, Nietzsche baixa os olhos e descobre um flagelo ensanguentado em vez do cajado que julgava carregar. Sócrates permanece imóvel, como o Crucificado, há tristeza em seus olhos.

A vista de Nietzsche se embaça, as cores se borram e enfumaçam. O buraco do medo e dos demônios escuros que o torturavam começa a sugá-lo de volta. Sente uma pressão horrorosa na barriga, a cruz do sacerdócio que tanto buscou. Quer agora ter vontade, mas fraqueja e é engolido.

Na praia, não há mais Nietzsche. Apenas gaivotas, o sol do fim da tarde, a brisa do mar. E Sócrates, que suspira profundamente.

(Conto velho, do começo dos anos 2000, acho)

Empreita

Numa única tarde, 
Fizemos luxuosa mansão
E meia dúzia de castelos,
Todos respingadinhos
À Barcelona, imponentes;
Colunas, voláteis volutas,
A rebrilhar ao vento veranista,
Entre quatro muquinfos
De   crustáceos  “corruptos” 
(aqueles de fisgar robalo)
Parafusados na areia molhada
Da praia de Juqueí. 

(Poema escrito em 2018)