Lúcia

(Este relato pessoal sobre minha amiga Lúcia foi publicado como post em 2017)

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Conheci a Lúcia em 1996. Tinha ido fazer minha segunda faculdade em Salvador. Formado em jornalismo, quis estudar psicologia na federal baiana. Não deu nada certo: larguei o curso ainda nos primeiros meses e fiquei perdido e sozinho numa cidade estranha. O semestre em Salvador teria sido péssimo, não tivesse sido ótimo – por causa da Lúcia.

Ela foi minha melhor “amiga mulher” nesta vida. Digo assim porque amizade entre homem e mulher nunca é coisa simples. Eu a conheci numa festa. Ela estava dançando, e eu cheguei junto porque me senti atraído por ela. Naquela noite, a gente deu uns beijos e trocou telefones. Depois, saímos outras vezes, como se estivéssemos de rolo, digamos. Acontece que nossa conversa era tão interessante, mas tão interessante, que a gente ficava falando sem parar e esquecia de namorar.

No fim da noite, a gente dava um beijo protocolar, quiçá um selinho, na hora de se despedir, porque aquilo, afinal, era um “encontro”, certo? Mas, desde o começo, o sentimento de amor parecia maior do que a atração. Nosso sentimento sempre foi o da mais pura amizade. Amigos, amigos mesmo.

A Lúcia me mostrou Salvador e além: Piatã, Rio Vermelho, Amaralina, Jardim de Alah, Itapuã, mas também Arembepe e Cachoeira, uma cidadezinha do Recôncavo. Foi lá o tira-teima do status do nosso relacionamento. Viajávamos juntos, supostamente como ficantes, hospedados no mesmo quarto. Era para a gente dormir juntos, só podia. Mas chegou a noite e nada. Me deu sono, deitei numa cama e dormi. Ela dormiu na outra. No dia seguinte, sem que nada precisasse ser dito, soubemos que éramos e seríamos sempre amigos, os melhores amigos do mundo.

Resolvida a questão romântica, estávamos liberados para curtir o que mais gostávamos de fazer juntos: conversar, e conversar, e conversar sem parar como dois loucos. Sobre tudo, mas sobretudo psicologia e cultura. Aprendi muita coisa com a Lúcia. Ela falava de Pierre Verger, Dante, Thomas Mann e, claro, falava muito de Freud. Ela era psicanalista. Das boas. Tinha capacidade de interpretar as coisas, as questões que eu tinha, minhas dúvidas e conflitos, aos 25 anos, uns dois anos mais novo que ela.

Outro dia, estava folheando meu velho caderno de viagem da época, e lá, numa página, eu havia escrito assim: “Lúcia diz que existe um ‘gozo’ nessa minha indefinição de vida”. Estava perdido, sem saber aonde ir e o que fazer, e ela, com sua visão de raio-x, me falava de uma coisa que só hoje, 21 anos depois, consigo entender: a de que existe um ganho torto em todo sintoma, um gozo doloroso que se repete de forma mortífera, por ser uma defesa neurótica contra a angústia de outra dor, uma dor primitiva que nos devora.

A amiga, enfim, era muita areia pro meu caminhãozinho. Ela me falava de Goethe, e eu pedia para ela ouvir Mutantes. Ela me ensinava iorubá, e eu era o maluco do rock, que gostava de beber e fumar. Éramos como a música da Legião: “ela fazia medicina e falava alemão, e ele ainda nas aulinhas de inglês”. Não exatamente assim – mas bem assim no fim das contas.

Seu raio-x se voltava sobre ela também. Foi a primeira pessoa que vi se autoanalisando sem piedade. Uma vez, a gente voltava de uma cerveja com maniçoba no Rio Vermelho, e ela encanou, a sério, que tinha um carro seguindo a gente, como se fossem agentes assassinos da KGB. O problema é que ela é quem estava ao volante, muito nervosa, tentando fugir do carro, e podia nos matar. Segurei no braço dela: “Calma, Lúcia, não tem por que o carro estar seguindo a gente! Encosta aí, que ele vai passar batido”.

Dito e feito. Encostamos, o carro passou, e ela enfim se acalmou. Me disse algo que repetiria outras vezes em sua autoanálises pelas noites baianas: “Olha como eu sou neurótica!” Eu ria e a consolava, porque também começara a me debruçar sobre minha própria loucura. Naquela dupla, ninguém era normal, e tudo bem que fosse assim.

Então, depois de um semestre inteiro conversando sem parar sobre todas as coisas do mundo, voltei para São Paulo…

Na época, entenda, não havia celular, nem rede social, nem câmera digital. Lamento demais não ter nenhuma foto dela de lembrança. Mas, naquele tempo, as pessoas nem e-mail tinham. O que a gente tinha era o telefone fixo da casa dos pais, mais nada. E os dois mil quilômetros entre São Paulo e Salvador eram distância suficiente para congelar uma amizade no tempo.

Ficamos sem nos falar por sete anos. Daí, lá por 2003, fui passar um par de dias em Salvador. Dei um jeito de achá-la, depois de muita peleja. A gente se encontrou rapidamente num bar lá no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. Tínhamos duas horinhas, se tanto, pouco para falar como antes. Ela contou que estava casada e tinha um filhinho ainda bebê. Me lembro de sentir o quanto ela amava o filho e, também, de quanto gostava do nome que havia escolhido para ele: Theo.

Mas logo deu a hora. Lúcia levantou para ir embora. Ainda agora consigo vê-la caminhando em direção ao carro, com a Basílica de Salvador ao fundo. Penso se guardei a cena na memória por ter percebido que aquela seria a última vez que a veria.

Bem, pule aí mais 14 anos no tempo. Em 2017, tomei vergonha na cara e fui finalmente estudar psicanálise. Quis contar para minha amiga a novidade. Sobretudo porque, ao fuçar minha biblioteca, havia achado um livro de psicologia comprado em Salvador, em 96. Na folha de rosto, havia um recadinho, da Lúcia para mim, escrito em alemão, porque ela era muito chique! Era o convite para tomarmos uma cerveja. Puxa, mas como encontrá-la tanto tempo depois? Só me lembrava do nome de solteira dela, mais nada.

Depois de procurar um bocado, achei seu perfil no facebook, que dizia que ela agora morava na Espanha. Achei condizente com o chique da amiga. Mandei o pedido de amizade e um recadinho, e nada. Ela não respondia. Dias se passaram. Continuei procurando, até achar uma ação judicial de espólio por morte. A morte dela!

Fui tomado por um tristeza tão grande que só consegui dormir com o dia claro. Fritando na cama, lembrava das nossas conversas, agora sabendo que elas não se repetiriam. Me culpei por não ter procurado por ela antes, por não ter visitado a Lúcia na Espanha, no hospital, onde fosse. Depois, uma prima dela me contaria que Lúcia havia morrido de câncer, fazia um ano, depois de embate doloroso com a doença.

Não pude me despedir de você, minha querida, e por isso lamento demais. Queria te contar muitas coisas. Queria te reencontrar, me sentar com você e conversar de novo sobre todas as coisas do mundo. E dizer que eu te amo. Fica em paz, amiga. Um beijo e até um dia, quem sabe.

O recado dela no meu livro (o Raul foi por minha conta): Olá, Adriano! Como vão as coisas? Que tal? Tive uma ideia: podemos tomar mais uma cerveja. Saudações, Lúcia.

Sonho n° 54

Castrado

Sonho que estou numa pousada de quartos coletivos. Acordo pela manhã e saio para ir ao banheiro, também coletivo.

Passando pelo corredor, há um dormitório com a porta aberta. Quero ver se há alguma mulher bonita ali. E, de fato, há uma moça de calcinha, de bruços na cama. Fico excitado, mas infelizmente ela é muito jovem para mim.

Perto do banheiro, há uns cachorros poodle. Um deles morde o dedão do meu pé esquerdo, de um jeito dolorido. Não solta, fica rosnando. Demora um tempo até que ele se acalme e me solte.

As mulheres na porta do banheiro perguntam distraídas o que houve. Eu mostro o dedão, que me parece muito machucado. Mostro na expectativa de que elas se compadeçam de mim. Mas elas parecem não ligar.

Pergunto se alguém está usando o banheiro. Uma delas diz que está dando banho na filha, portanto não posso entrar. Fico agastado porque aquele é um banheiro masculino. Mas fico quieto, não digo nada.

Há uma espécie de bedel feminina na porta do banheiro. Ela é jovem, bonita, gostosa. Veste-se de uniforme. Chegam duas mulheres de 50 anos. Uma delas pergunta para a bedel:

– A gente precisa usar roupa em todos os ambientes da pousada?

– Precisa, sim – responde a bedel – É para a decência do local. Para vocês não andarem peladas entre os homens.

O problema, retruca a mulher, não era esse. Tinha feito a pergunta sobre a necessidade de roupa porque já era velha: se a vissem pelada, iriam achar seu corpo feio.

Neste momento, reconheço que a mulher é aquela amiga minha.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 12/04/18)

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“Ela é muito jovem para mim”

Se a personalidade é uma defesa neurótica contra o desespero e você abandona essa defesa, você então admite a enxurrada total do desespero, a plena percepção da verdadeira condição humana. Neurose é outro termo para descrever uma técnica complicada de evitar sofrimento, mas realidade é sofrimento.

Ernest Becker

O corredor

O corredor tem espécie de pés aplainados. Usa tênis motion control por ruindade de karma: decepara por maldade o pé de um cruzado, em 1178, noutra encarnação. No fim do outono de 2005, porém, o corredor segue rumo aos montes à sua frente.

Na primeira elevação, vê um trio de paulistanos tomando chope. Aperta o passo fundo no pisante contra pronação, para ouvir o que dizem eles.

Em meio ao bafo de chope e à bruma de nicotina, falam dos diversos tipos de Marlboro: azul, quase-azul, cinzinha, doirado, bicolor de bolinhas explosivas. Todos eles, sem exceção, dizem que homem é quem fuma o vermelho.

O corredor, que não fuma mais, deixa de lado fumantes e segue ao próximo monte. Na elevação seguinte, está um casal de namorados brigando. Acusam-se de egoístas, gritam diante do espelho.

O corredor aperta o passo, conferindo as pancadas no frequencímetro de pulso, limpa o suor da testa e segue em frente. O monte seguinte logo se apresenta.

Ali, uma missa negra encomendada por um político mineiro. O deputado está vestido de aprendiz de demônio, ajoelhado na frente da entidade.

A entidade é leva-e-traz do destino. Quem suja a mão é o político. Ele levanta às mãos ao anjo da sombra, pede poder em Brasília. O corredor fecha os olhos na hora em que o deputado passa a faca no pescoço do bode.

Correndo ainda, segue com medo. O pulso cresce no frequencímetro. O corredor vislumbra o monte seguinte, mais alto do que os anteriores

Lá no cume, um vulto. O pulso quase explode, o suor empapa a camisa do corredor. Sobe sobre o monte, sobe. Finalmente chega ao vulto – que de perto não é mais vulto.

É um homem. Um velho, para melhor dizer. O velho traz um bebê nos braços. E esse bebê é o fazedor de sonhos da mente do corredor. Movimento rápido dos olhos.

(Continho publicado em blogue, em 14/06/05, e editado em 2021)

I pray thee, Lord, my soul to keep

Psiconautas

Duas lanternas e um lampião alumiam o caminho estreito, ladeado por chacronas e espadas-de-são-jorge. A trilha corre enlameada por conta da chuva do dia anterior, mas esta é uma noite de céu aberto, aquela profusão de estrelas só possível a bons quilômetros da capital paulista.

As lanternas vão nas mãos de Carneiro e Alex. O lampião balança a palmo e meio do chão, carregado pelo líder do grupo. Simões é chamado por eles de “Velho”.

É jeito de falar. Tem cinquenta e poucos, idade não muito superior a dos outros dois. Mas o Velho é o mais experiente na senda do Daime, tem ascendência psicodélica sobre os companheiros.

Rumam na direção do “terreirinho”, batidão de terra nos fundos do sítio onde estão, local do aguardado “trabalho de cura”. Sobre eles, o céu perfurado de estrelas do manto da galáxia. O Velho fala com orgulho do sofrimento passado sob o efeito do chá alucinógeno:

– Teve uma vez que eu e o Gilson fizemos um trabalho de cura lá no Matutu. Nossa senhora! A gente estava muito “pegado”, o Gilson vomitando as tripas. Peia brava. Acabei numas regiões muito feias do astral. A quantidade de bicho feio que eu vi não foi brincadeira.

– Bicho feio? – pergunta Alex, neófito da bebida mágica, com medo do seu primeiro trabalho de cura: um Daime servido mais forte, concentrado, meloso.

– Bicho feio, seres do astral. Seres não muito evoluídos que vêm tentar tirar a gente do prumo, que vêm pra meter medo.

Carneiro, até então calado no fim da fila, com olhar firme no facho da lanterna, também põe orgulho no próprio sofrimento lisérgico:

– Uma vez, Alex, eu vi uma legião de demônios. Eles tentaram arrancar meu coração. Quando achei que ia morrer, depois de ter vomitado, me mijado e me cagado todo, Ogum me protegeu daqueles seres. – conta o Carneiro, todo satisfeito. O Velho retoma a lição:

– Ogum é a melhor proteção nessas horas, além da Rainha – explica, apontando depois para as espadas-de-são-jorge – É muito bom fazer uns banhos com a espada-de-ogum pra se proteger.

Simões segue a linha tradicional, mas desenvolve sua própria liturgia pelos interstícios. Agrega forças de Umbanda nas sessões de cura. Anos de psicodelismo não haviam resultado em algo muito coeso. O Velho tem vasta milhagem psicodélica. Qual a conclusão disso, entretanto, difícil de se dizer.

Antes de iniciarem a caminhada rumo ao “terreirinho”, quando ainda tomavam café e jogavam conversa fora, Alex havia perguntado a Simões qual o progresso conseguido depois de décadas tomando alucinógenos, Daime, ayahuascas peruanas e peiotes mexicanos. O Velho foi vago. Disse que havia aprendido muito, sem contar o quê.

Chegam ao terreirinho. Sentam-se os três em cadeiras de praia, postadas em ângulos de cento e vinte graus, como vértices de um triângulo equilátero. O triangulo está encaixado num círculo imaginário. Por ali, correrá a corrente de força criada pelos três durante a função.

Faz muito frio. Usam capotes pesados, cachecóis e gorros de lã. O lampião e as lanternas são apagados. A única fonte de luz é a vela colocada sobre a mesinha no centro do triângulo, junto a garrafa da bebida concentrada.

Carneiro é encarregado de servir as doses, Simões fica com o comando do trabalho. E Alex reza para que a viagem corra macia. Simões pede que todos se levantem:

– Vamos abrir, então, mais um trabalho de cura. Pedimos que os seres de luz que nos acompanham possam nos guiar nessa noite. Estamos aqui para curar todas nossas enfermidades, físicas e espirituais. Pedimos a proteção de Jesus Cristo Redentor, da Sempre Virgem Maria e de todos seres divinos da Corte Celestial. Bom trabalho a todos.

Dito isso, o Velho deixa de lado a retórica cristã para se mover pelo arcaico. Pega o chocalho e começa a andar por fora do círculo, parando em alguns pontos, segundo a presença ou a ausência de suposto componente invisível.

Balança o instrumento e solta estalos esquisitos com a boca, como se invocasse ou enxotasse forças ocultas. Alex desconfia da percepção sutil de Simões, pressente encenação.

As primeiras doses são servidas. Alex relembra do gosto ruim do chá de cor barrenta, mistura de jagube e rainha, fundidos na água. “É o gosto da mãe-terra”, ele pensa. A vela é apagada e resta apenas a luz das estrelas na calota do céu. O silêncio é imenso.

Vinte minutos se passam até que a mudança de consciência seja notada por Alex. Quando vê, já não é mais o mesmo. A realidade amoleceu. Pode voar com a mente, mas não controla o voo. Vai pelo fio da navalha, qualquer descuido com os pensamentos o leva ao inferno. Uma onda fria de medo.

“Não existe nada a não ser o amor”, Alex repete mentalmente para controlar a vertigem. Abre os olhos e vê seus companheiros, tão humanos. Surge na mente o pensamento de ser especial, mais evoluído que os outros dois ali na roda. A ideia, de início prazerosa, começa a virar dor. Uma sequência de pensamentos de culpa lhe rouba o equilíbrio.

Há interconexão das mentes na roda. Carneiro está vomitando, e Alex sente no próprio estômago o Daime sacolejando. Ele diz à bebida: “Somos irmãos, feitos da mesma terra, não precisamos brigar. Somos feitos da mesma substância”. Acalma-se.

Uma nova dose é servida, Simões começa a cantar hinos sofridos, invocando cobras corais. As cobras logo tomam o terreno em volta, vívidas na “miração” dos três. São frias e hostis, enroladas em grandes montes espalhados pelo terreirinho.

“Ah, a obsessão pela cruz”, pensa Alex. A mesma cruz desenhada no peito pelos companheiros de roda depois que viram suas doses de Daime. “Por que um Deus crucificado?”

Vê o sofrimento e a beleza dos dois parceiros ali na roda. Quer ajudá-los. Então, ouve uma voz clara em sua mente: “Não tente ajudar quem não quer ser ajudado.”

Daí, um mergulho no silêncio, alheio ao que acontece do lado de fora. Por dentro, vai até um mundo de arco-íris, onde encontra um iogue que ele conhecia de um livro. Vai a lugares dos quais nunca se lembrará quando voltar.

Meia hora depois, o Velho começa a puxar os últimos hinos da noite, mais alegres e próprios para a aterrissagem. Alex abre os olhos e sente a presença sólida do amor por tudo em volta. Sabe que o olhar curioso dos dois amigos lhe obriga a voltar ao velho Alex, deixando a onda alucinógena partir, como o sonho que se esvai pela manhã.

Simões parece ter voltado ao normal. Chega a fumar cigarros de filtro vermelho entre um hino e outro. Pergunta se todos estão bem e pede para que se levantem. Toma a palavra depois dos três rezarem o Pai Nosso:

– Agradecemos a oportunidade desse trabalho de cura. Agradecemos a Deus, a Jesus Cristo e à Virgem da Conceição por suas bençãos. Agradecemos aos seres divinos e também àqueles não tão divinos que nos visitaram hoje. Aprendemos com todos eles. Dou o trabalho por encerrado.

Os três homens ali reunidos sorriem e batem palmas, sobreviveram.

Alex senta-se novamente, ainda aproveitando o sonho alucinógeno que vai se desfazendo. Simões e Carneiro estão em pé, excitados, comentando sobre experiências do trabalho. Alex assiste à formação daqueles sujeitos, os homens se conformando aos seus personagens, ajeitando-se às molduras da personalidade. Sabe que também terá de voltar a ser o mesmo de sempre.

Rende-se ao convite, levanta da cadeira, sorri para os dois companheiros. Pede a Simões um cigarro. Os três egos agora reconstruídos começam silenciosos a caminhada de volta. Querem apenas comer alguma coisa quente e se jogar numa cama limpa. Querem agora o sono da inconsciência.

(Conto escrito c. 2002 e atualizado em 2021)

Enxotando os malfazejos

Sonho n° 36

A máquina fazedora de sonhos

Sonho que estamos eu e minha mãe na ponte de Santa Clara, sobre o rio Mondego, em Coimbra.

Estou debruçado na grade de proteção da ponte, observando o leito do rio. Vejo uma caneta esferográfica boiando sobre as águas, descendo no fluxo do Mondego.

Faço um experimento para tentar puxar a caneta com a força da minha mente e, realmente, consigo. A caneta retrocede metro e meio contra o fluxo do rio. Paro de exercer o controle mental, e ela retoma o movimento rio abaixo.

Surge uma mulher que comenta sobre a caneta boiando. Viro para ela e digo:

— Esse é o peixe mais lindo de todos.

A mulher vê um belo passarinho, que passa voando pela gente. Para agradá-la, sigo o passarinho para fotografá-lo com o meu celular. Disparo a câmera várias vezes. Quando vou ver o resultado, há ali um filme, e não uma sequência de fotos, como se era de esperar.

Descubro que o Facebook desenvolveu uma função de criar sonhos, no sentido freudiano de realização de desejos. A ferramenta usa as fotos do celular para criar um sonho desejado pela pessoa.

No filme, o passarinho aparece em close-up e detalhes. A mulher surge também como personagem do filme, andando de esqui sobre o rio Mondego, acompanhada de um homem com quem já teve um caso amoroso.

Resolvo experimentar o novo recurso de sonhos da rede social, faço uma filmagem com minha câmera. Vou ver o resultado.

No filme, aparece um herói chamado Platonic Hill, cujos episódios são formados pela câmera do celular. Ele aparece num episódio em que há uma linda moça comilona.

Há umas 15 ou 20 pessoas reunidas em frente a uma enorme tela para ver o episódio em que o Platonic Hill vai salvar a comilona, que está para cair numa armadilha.

A moça está nadando numa piscina. Aparece o vilão. Ele solta cheiro de carne assada na água. Depois, coloca na piscina um boneco que parece ser feito de carne assada. Quando a comilona chega perto para comer, ela descobre que o boneco, na verdade, é feito de fezes.

A moça começa a passar mal e se debater de nojo na água. Mas Platonic Hill sai voando e mergulha na piscina para salvá-la com um kit médico para prestar os primeiros socorros.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 16/07/17)

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A ponte de Santa Clara, sobre o rio Mondego

Sonho n° 57

Um bebê esquecido no berço

Sonho que estamos chegando numa chácara, nossa chácara. Minha mãe está ali, talvez meu pai também. Naquela chácara, poderei pôr em prática alguns projetos. Um deles é plantar.

Mas é difícil arrumar espaço. O terreno da chácara, de uns mil metros quadrados, é quase todo tomado por construções inacabadas. Uma casa, uma capela e outras construções que me parecem inúteis.

Quem causa o problema é uma família de velhos que mora ali. Eles não me agradam. Acho que eles são porcos e burros. Estão morando no lugar que deveria ser da capela. Ficam ali vendo TV, fumando. São uns cinco ou seis velhos. Há também um bebê esquecido no berço.

Fico puto porque eles estão bem no lugar onde seria a capela. Pior é que os velhos definiram pra que santa a capela seria dedicada, e o nome da santa eu nem conhecia. Aquilo já era demais. Viro para minha mãe e digo:

 – A chácara é nossa, eles não podem escolher pra quem vai ser a capela. A capela tem que ser de São Francisco de Assis. A santa dos velhos pode até ficar num altar secundário, mas a capela tem que ser de São Francisco.

Peço a minha mãe que vá falar com a velha-chefe do bando de velhos súcubos. Minha mãe reluta, sente-se constrangida. Eu insisto:

– Como vocês podem deixar esses velhos mandarem na chácara? Olha esse monte de coisa feia e inútil. Essas coisas exageradas, esse pé direito altíssimo!

Minha mãe me pede pra ver o lado bom da coisa. Me mostra um escorregador de água vertical, que fora construído para o lazer. Resolvo escorregar nele. Depois da vertigem da queda, caio numa piscina. Mas não há nenhum escape para tirar a cabeça fora da água, a piscina está toda tampada.

Sem poder respirar, desesperado, tento a única manobra possível: voltar pelo escorregador para tentar achar um escape de ar. Quase morro afogado, mas consigo no último instante encontrar o ar que precisava.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 17/04/18)

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Sonho n° 32

Batendo nas portas do céu

Sonho que estou num bar. Vejo ali um sujeito simples de tudo. Caipira americano, inocente, simplão. Ele está ouvindo  Knockin’ on Heaven’s Door, do Dylan. Enquanto ouve, se acaba de chorar, muitíssimo emocionado: Mãe, agora é tarde…

É uma gravação muito especial da música. Gravada na ponta dos cascos da emoção, gravação ao vivo, um take só. Nas pick-ups do bar, vejo um senhorzinho de calça brim desbotada. Ele parece equalizar a canção de modo a tirar o máximo de emoção do rapaz.

A música já vai pela metade, e o rapaz ali, naquela incrível liberação emocional: chora incrivelmente mesmo, com lágrimas gordas e copiosas.

Alguém comenta sobre o estranho caso do rapaz. Dizem que ele sempre escuta a música nesse ritual. E sempre para de chorar assim que a canção chega ao fim. Recompõe-se e volta ao jeito simplão, caipira americano de ser, em tudo previsível e controlado.

O que me espanta, no sonho, é que daquele tipo de homem eu jamais esperaria uma reação emocional tão desbragada.

Alguém me diz que ele chora pela própria canção, pela música em si, não por algo que aconteceu com ele. Chora a tristeza da balada. Chora como choraram seu pai e seu avô antes dele.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 11/07/17)

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Sonho n° 35

O repórter sem cabeça

Sonho que estou passando diante da sede do Flamengo. Nada me indica que seja, mas eu sei que é.

Na calçada, está um repórter do rádio esportivo, gravando comentário sobre o próximo jogo do time. O jornalista não tem cabeça, seu defeito de nascença. A boca fica no braço, no cotovelo. E ele segura o gravador ali perto para gravar o áudio.

O homem não é só um repórter setorista do clube, ele é flamenguista de coração. Tanto que, ao final do comentário, depois de terminado o trabalho, ele se abaixa e beija a calçada “sagrada” do time, todo atravessado de emoção.

Eu, para dar uma força — como alguém que é movido pelo sentimento de compaixão por um deficiente, pelos fodidos da vida — aplaudo seu comentário.

Como não tem cabeça, ele não me vê, mas pode me ouvir. Caminha em minha direção para me cumprimentar, para me agradecer. Só que, na verdade, eu estou disfarçado de velhinha para não revelar minha real identidade.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 12/07/17)

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Sonho n° 51

Freud ensinando o brasileiro a viver

No sonho, me vejo dando aula sobre Freud, dizendo que ele era um cara inteligente, sublimado pro trabalho. Mas, então, surge o próprio Freud, nos grotões brasileiros, pra ensinar os cabras mal ajambrados a viver.

Explica como se planta, ensina como que vive. Mostra como usar a cal para traçar os limites dos campos. Diz que o Brasil é a terra da cal e que, ainda assim, o povo não sabe caiar.

E o povo ia ali seguindo Herr Doktor Freud, fazendo perguntas, e ele no meio, como pombo-chefe da aldeia. Uma senhora pede para ele examinar sua vagina. A madame explica que tem um encontro amoroso naquela noite e que quer ter “a tabaquinha nos trinques”, para fazer bonito com o amante.

Freud não se faz de rogado. E tem zero excitação naquilo. Depois do exame, o analista vê que a mulher está descartando um absorvente caseiro. Diz a ela:

— Tome cuidado. Numa cidade pequena, se descobre facilmente a dona da vagina pelo aspecto do absorvente.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em setembro de 2017)

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