As armas e os barões assinalados

– Por isso é que eu te digo que o texto vale por si.
– Vale por si como?
– Vale por si, fala por si. Ele cria significado além da intenção do autor, saca?
– Ou vai ver você que acha que cria e vê significado onde não tem.
– Isso. Mas, se eu vi significado, ele significou alguma coisa, porra.
– Mas não foi o que o autor quis dizer.
– E qual o problema?
– A viagem é sua, não é do autor.
– E daí? O texto vale por si, entendeu?
– E o autor serve pra quê?
– Ele é tipo uma antena de ideias possíveis.
– Não fala merda! Você acha que o cara não tem intenção no que escreve?
– Claro que tem, mas isso não vem ao caso.
– Ah, cala a boca!
– Tô te falando. O texto é qualquer coisa, e não é nenhuma em especial. Nem a coisa que autor quis que fosse.
– É o mundo das ideias, tipo?
– Tipo. As ideias potenciais usam o fulano como cavalo, entendeu?
– E nasce o bebezinho-texto?
– É!
– E a intenção do autor não vale merda nenhuma?
– Vale só como mote pra fazer o texto existir, depois ele se vira sozinho.
– Que nem aquele fantasma do filme do nenê?
– Isso, uma aparição, uma doideira livre, uma coisa qualquer.
– Tipo os Lusíadas?
– Exatamente. Tipo Taprobana.
– Que quer dizer Taprobana? Nunca entendi.
– Não sei. Pra mim parece nome de rango. Sei lá, uma tapioca, só que uma tapioca mourisca.
– Meu! Rolou um puta déjà-vu agora!
– Xi, deu pau na Matrix.

(Conto escrito em 2004)

“Não há nada fora do texto”

Meu dono é um francês chamado Derrida. Fosse ele aqui, me chamaria de “minha plúmbea máquina de escrever”. Se me premeditasse naquilo que prestes estou a revelar, diria troçando ser meu idioma “o desfaçatez”. Viria com a história de que até a máquina fala por símbolos, no ranger do inapreensível, na busca pela verdade adiada, no devir.

Encheu papéis para descrever-me, eu que escrevia a mim mesmo, já que nada é senão mente — algo que neste instante capto em minha abdução peirceana, pelo lume que adentra os vãos da cortina de placas fixas — justo agora que nem de um Carlos Sandro se careceria para entender a metalinguagem da máquina que batuca histórias sobre si mesma.

Na zona do agrião, no bafafá do bololô, no inglório dia do julgamento final dos pensadores, meu dono saberá que tudo lhe seria ainda mais assombroso. Ali, de frente ao deus, andando de lá para cá, choroso.

Com meu metal e meus semióticos botões de plástico apertados contra a pele da pança carnosa, ele verá uma estranha luz difusa nunca dantes notada, espalhando-se por tudo, nascendo do ponto para onde jamais havia voltado a vista. E perceberá o olho brilhante do fílmico projetor da realidade que nunca houve.

(Conto escrito em 2004)