Sonho n¬į 54

Castrado

Sonho que estou numa pousada de quartos coletivos. Acordo pela manhã e saio para ir ao banheiro, também coletivo.

Passando pelo corredor, há um dormitório com a porta aberta. Quero ver se há alguma mulher bonita ali. E, de fato, há uma moça de calcinha, de bruços na cama. Fico excitado, mas infelizmente ela é muito jovem para mim.

Perto do banheiro, há uns cachorros poodle. Um deles morde o dedão do meu pé esquerdo, de um jeito dolorido. Não solta, fica rosnando. Demora um tempo até que ele se acalme e me solte.

As mulheres na porta do banheiro perguntam distraídas o que houve. Eu mostro o dedão, que me parece muito machucado. Mostro na expectativa de que elas se compadeçam de mim. Mas elas parecem não ligar.

Pergunto se alguém está usando o banheiro. Uma delas diz que está dando banho na filha, portanto não posso entrar. Fico agastado porque aquele é um banheiro masculino. Mas fico quieto, não digo nada.

Há uma espécie de bedel feminina na porta do banheiro. Ela é jovem, bonita, gostosa. Veste-se de uniforme. Chegam duas mulheres de 50 anos. Uma delas pergunta para a bedel:

‚Äď A gente precisa usar roupa em todos os ambientes da pousada?

‚Äď Precisa, sim ‚Äď responde a bedel ‚Äď √Č para a dec√™ncia do local. Para voc√™s n√£o andarem peladas entre os homens.

O problema, retruca a mulher, n√£o era esse. Tinha feito a pergunta sobre a necessidade de roupa porque j√° era velha: se a vissem pelada, iriam achar seu corpo feio.

Neste momento, reconheço que a mulher é aquela amiga minha.

Ent√£o, eu acordo.

(Sonho anotado em 12/04/18)

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“Ela √© muito jovem para mim”

Short Cuts

Pibu, o pacu, nasce roxinho-roxinho. Tem pulm√Ķes em vez de guelras e, pof, explode que nem baiacu. Chora o ribeir√£o.

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Eu, eu, eu, Riobaldo se fodeu ‚Äď dizem os jagun√ßos que n√£o largam do p√© do personagem de Jo√£o Guimar√£es Rosa. Tudo porque Diadorim, no fim das contas, era uma bel√≠ssima duma Bruna Lombardi, e agora √© tarde. De c√≥coras, num canto, mascando talo de capim, Riobaldo quer √© matar o bardo de Cordisburgo. Quer gritar pra todo mundo que como escritor o Rosa era mesmo um excelente bot√Ęnico, no m√°ximo um lexic√≥grafo pass√°vel, aquele fio dua √©gua.

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O cora√ß√£o disparou quando ela o viu tomando cerveja no bar com os amigos: jeans velho, camiseta preta, dois brincos de argola na orelha direita, caixinha de Marlboro sobre a mesa. J√° tinham se passado uns bons anos, e ele continuava igual, bonito e charmoso como sempre. Ela, diferente, mais gordinha, corte de cabelo de senhora comportada. Depois de se abra√ßarem e falarem juntos ‚Äúquanto tempo‚ÄĚ, n√£o teve coragem de contar que era casada e tinha dois filhos pequenos, um deles doentinho em casa, esperando pelo rem√©dio que ela tinha sa√≠do para comprar.

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Candinha faz que faz jus ao nome, mas qual. Usa os molequinhos da ONG Saci Nervoso para levar as pedras pros playboys da zona sul. Os moleques vão e voltam numa pernada só, e Candinha faz caixa pra comprar uma AK e pintá-la de ouro pra vingar a morte de Bem-Te-Vi.

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Madonna Ciccone chamou-se Rubens na pr√≥xima encarna√ß√£o. Franco, probo, vasto e gordo, seu Rubens ‚Äď o popular Rubinho da Vila Prudente ‚Äď chegou rosado aos 60, sempre de camisa xadrez e boina de l√£. Era em tudo um tradicionalista, quem diria. Na vitrola, s√≥ Cyndi Lauper.

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Z√© Touro, o ganso-homem, coaxava igual peru. Galinhou-se pros lados da Vila Pav√£o e emburrou no pet shop. L√°grimas de crocodilo, olhos de lince, gog√≥ de avestruz. Gostava de Roberto Carlos Braga ‚Äď p√ī, bicho.

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Menino Malufinho brinca de fazer castelinho. Quinze graus de miopia aos 6 anos, contrata uns guris para a empreita. Com a areia licitada, daria pra fazer frente a Gizé. E ainda sobrava prum Colosso de Rodes.

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Vinha o portuga pelo deserto no pelo de um animal de raça, um dromedário mouco. Vinha meio bêbedo, sobre o pelo suado do animal. Contra o sol escaldante, olhava duro o pedaço de papel trazido na mão, papel que lhe indicava o sentido da sua vida. Era grego, porém, e dizia algo como: xpóvia. Ao pobre portuga, que Nuno se chamava, só restava amaldiçoar a má sorte do povo de Portugal.

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Adriano Quadrado, escritor an√īnimo, publica em seu blogue. Ningu√©m o l√™.

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Na faculdade, o gênio incompreendido gosta de citar Baudelaire. Les Fleurs du Mal, no beicinho dir-lho-ia. Mas comeu mal uma coxa de frango no bar de Loló e agora castiga a porcelana do centro acadêmico.

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Após cento e dois anos a serviço do escrete nacional, Mário Jorge Lobo Zagallo deixa esta terra sofrida. Seu corpo é empalhado por ordem de Ricardo Teixeira Neto. Eterniza-se daquele mesmo jeitinho: cabeleira branca, abrigo esportivo, rosto sanguíneo igual a um peru. Daí em diante, é colocado no banco em todos os jogos da seleção. Para todo sempre.

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Ramiro Pengaba vinha pela estrada ensolarada tal qual um monge mendicante de Benares. Tinha o peito cabeludo e vastíssimo, não temia a homem nem a bicho do além. Mas não sabia que seu mundo era pequeno. E os insetos que vagam pelos charcos têm poucas chances de alcançar o oceano.

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A √ļnica ideia que Vacacorso teve na vida foi um trocadilho de qualidade duvidosa: Estrogonhoque. Tanto que resolveu abrir um restaurante mezza-russo mezza-napolitano s√≥ para exibir em n√©on sua ideia solit√°ria. Deu com os burros n‚Äô√°gua, infelizmente. Creme de leite, carne de segunda e pelotas de batata com molho ao sugo resultavam numa mistura pra l√° de infame.

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Cremildo, depois de enfileirar um estranhéguer, três porradinhas de cana com crush, cinco malt-nojentas, uma vódega e um cuígue, mais a medonha batida de coco com muito leite condensado, chega em casa em petição de miséria. Corre pro banheiro para vomitar, mas, quando baixa a cabeça, pressente a diarreia. Indeciso entre enfiar a cara ou a bunda na privada, opta por um movimento ousado. Entra no box, abre o chuveiro e explode lá dentro.

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O embate final entre os terráqueos e os klíngons se dá entre o paraibano Dirceu e o klíngon Zyxar. Trata-se de uma competição de insultos, quem ganhar leva o planeta. Zyxar bem que tenta, traz algumas maldades psicofágicas no bolso do colete, mas zoar um lagartão de colete era mesmo covardia.

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Ariosto, um nome, uma lenda. Gostava de risotos, vivia constipado. Aos quarenta, deixou o time dos solteir√Ķes para juntar seus trapos com os de Piabinha, a mulher-peixe. Uma hist√≥ria de amor como outra qualquer, que n√£o mereceria mais do que poucas linhas num blogue obscuro.

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Sinhazinha, t√£o clarinha, corre pro escuro do mato para se encontrar com Egb√°, se entregar ao corpo negro de Egb√°. Suados, gemendo a poucos metros da janela do quarto de Dom Nuno Ramos Sardinha, que ressona na ilus√£o de que poderia controlar o mundo.

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Adriano Quadrado, escritor inaudito, escuta o barulhinho solitário do teclado beliscando o silêncio da casa cheia de goteiras. Escreve em vão.

(Post de blog publicado em 2003 e editado em 2021)