O despertar da for√ßa

Eu ainda n√£o vi o epis√≥dio 7, mas j√° imagino exatamente como seja…

Han Solo, na madureza, deixa de lado a pilantragem. Vai para uma prainha a muitos parsecs de dist√Ęncia e passa a viver da pesca artesanal. Sua esposa, Leia Organa, passa o dia na lida da casa, o mesmo vestidinho roto, o mesmo avental pu√≠do, toda gordota e entediada da vida. Ela frita postas de ca√ß√£o e chama o marido: ‚Äú√Ē, v√©io, o rancho t√° servido‚ÄĚ.

Quando o stormtrooper arrependido e a gatinha da galáxia o encontram, Han está justamente almoçando, acocorado na frente da casa. Mexe com os dedos calejados o fundo do prato de peixe, farinha e feijão, a barba grisalha por fazer, o queixo brilhando da gordura da comida. Eles lhe contam sobre um vilão novo, tal e coisa. Mas Han quase não fala. Sublinha o enfaro estalando a língua na busca por um fiapo de peixe preso nos dentes. Como todo homem vivido, sabe que a vida não vale a pena. Para se livrar dos visitantes, topa pegar a velha jangada e levar a dupla até o planeta pantanoso de Dagobah, onde Luke Skywalker então eremita.

No reencontro depois de tantos anos, os dois velhos amigos se cumprimentam num sil√™ncio constrangido. Han descobre que ningu√©m vira her√≥i impunemente: o lado sombrio uma hora acha o veio por onde se desopilar. Luke est√° b√™bado da pinga que ele mesmo produz mofando algas do p√Ęntano. Vive assombrado por fantasminhas hologr√°ficos e pela imagem de seu pai, lanhado e fumegante sobre o magma endurecido de Mustafar. Traz fundas olheiras, os dentes desconjuntados e aquela bel√≠ssima pan√ßa de iogue, no que Mark Hamill faz jus e leva pr√™mio.

O velho Jedi v√™ que a gatinha da gal√°xia √© bem gatinha mesmo, mas agora √© tarde demais para ele. Envergonhado, Luke saca seu sabre de luz e comete um harakiri ali mesmo, na frente de toda a adolesc√™ncia mundial, na plateia a comer combo de pipoca e coca zero…

Tipo isso.

(Post publicado em 2015)

A vingan√ßa dos Sith

O ir√īnico √© que na escola, na √©poca do primeiro filme, o chamavam de Boba Fett. Era um trocadilho infame sobre ‚Äúo bobo que fede‚ÄĚ, j√° que ele tinha mau h√°lito. Tinha bafo nosso amigo, coitado, e a turma em quest√£o era f√£ precoce de Star Wars. Precoce porque tinham apenas 13 anos, e era o ano de 1979. Como disse, faz tempo.

Boba Fett se chamava Paulo. Na verdade, tinha o nome de Paulo dos Santos Madeira J√ļnior. Mais tarde, j√° no colegial, ficaria famoso como Paulo Punheta. Mas estamos em 2005, e agora Punha J√ļnior, o ingl√≥rio Boba Fett, est√° numa fila para assistir Epis√≥dio III, a Vingan√ßa dos Sith. Absolutamente chapado de maconha, ali√°s, porque fumou uma base a caminho do shopping.

Em volta, o mar de adolescentes, mais alguns aposentados, desempregados, frilas e desocupados. Boba sente uma agulhada de compaixão pelos guris ao redor. Ele sabe, ele os vê. Vivem aquela bobagem de se mostrarem expertos em Star Wars, se orgulham de citar segundidades menos óbvias da saga. Querem porque querem se dizer ninjas da nerdice, suspiram por Leia, a tia que era gatinha em 77. O combo todo.

Madeira J√ļnior ali, com aquela dor carcomida no peito, ro√≠do de compaix√£o pelos guris e por si mesmo. Se sente culpado e condo√≠do. Com sua vida idiota, com seus 39 anos, farto de seus apelidos, farto do onanismo, com os dentes fodidos de tanto chupar halls preto, estacionado na fila para ver Epis√≥dio III.

Os jovens só querem avançar, reclamam da fila que ainda não havia sido liberada. Paulo Punha, num êxtase sado-budista, cagado com a cabacice dos moleques, se entende sabedor das ways of the Force. A fila anda, loucura. Velho Punha de pipoca XXXL na mão.

Lá vem o filme. E vem tão mal amarrado quanto esta historinha idiota que estou escrevendo. O filme é diferente do que Punha imaginava. Episódio III lhe parece uma desgraceira sem sentido e sem porquê. Quer avisar ao mundo. Mas como?

Os moleques, na saída do cinema, lhe parecem androides duma mesma linha de montagem. Saem dizendo que acham o filme o máximo, que se marcar é o melhor de todos, tá ligado, velho. Paulo, ali no meio, imenso, grisalho, falido, ele berra enfim como um wookie enfurecido:

‚Äď Seus bostas! Esse filme √© a coisa mais triste e deprimente que j√° se filmou!

Os moleques se voltam para Boba Fett com horror. Mas o shopping não é tolo, como Boba, e tem lá seus paranauês. O segurança vê Paulo Madeira gritando, saca o cassetete tal qual sabre de luz. Punha não desiste fácil. Berra com as veias no pescoço.

‚Äď Voc√™s n√£o est√£o vendo? Esse Epis√≥dio III √© igual a vida de voc√™s, essa gula troglodita de culpa, essa monstruosidade, esse guri Skywalker sem membros, fumegante e tostado, isso tudo, esse ego rid√≠culo de voc√™s!

O seguran√ßa do shopping n√£o tem d√ļvida. Parte pra cima do velho Punha, m√≥i o filho da puta no cassetete de borracha, padr√£o Brasil. Paulo cai murcho como um Obi-Wan. Sob as borrachadas do storm trooper, ainda arruma for√ßa para gemer seu epit√°fio,

‚Äď Escrevam a√≠, seus porras, seus curi√≥ do caralho! Esse filme √© o mais deprimente e inveross√≠mil da hist√≥ria! Quem nem a vida cagada de voc√™s!

Uma borrachada na têmpora foi o que salvou o dia dos adolescentes do shopping, já aflitos como um Hayden Christensen todo lanhado em Mustafar. Paulo, nosso bobo fedido, seria declarado morto logo depois.

Quanto ao seguran√ßa do shopping, este foi efusivamente elogiado pela chefia. Dias depois, promovido a Sith J√ļnior ao som da marcha imperial. Isso, essa mesma que voc√™ pensou agora. Fim da hist√≥ria.

(Conto escrito em 2005, e atualizado agora em 2021)

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