To Boddah

Hoje, temos equinócio, eclipse e superlua. Para os esotéricos, banquete: “Há setenta e dois anjos na terra, é preciso decidir de que lado você vai ficar!”, disseram-me. Para os astrônomos, eventos previsíveis; entrementes, desavisados nem sabendo do tríplice episódio. Normal, está tudo certo. Não julgo mais.

Faz tempo venho cozinhando na cabeça a ideia de que o real é o que se pensa que seja, sendo a vida apenas uma massa plástica, tão indulgente quanto impertinente, a se deixar moldar sem resistência nem razão, aceitando refletir a verdade que se queira imaginar, de tal sorte que não há algo real em definitivo, mas muitas realidades funcionando simultaneamente.

Há anjos, de fato, a quem neles queira crer, e anjos são fantasia, todavia, a quem quer que assim creia ser. Não se deve procurar a verdade, pois a verdade é só reflexo dos pensamentos, e tudo há ou deixa de haver conforme o gosto do freguês, como um Gato de Schrödinger democrático, de tanga de crochê em Ipanema.

Talvez tua má vontade em crer no que digo te aparte da compreensão, então repito: os anjos existem mesmo, não como fantasia, não como “função psíquica”, mas como verdade verdadeira, como realidade dura — porém só para aqueles que neles creem, pois que, no universo do descrente, anjos simplesmente não se dão.

E, hoje, por razões ignoradas, ando pensando muito em Kurt Cobain. Aquela história de começar as canções de forma suave e depois descer o pau, vejo como a repetição da biografia de Cobain: alguém que nasceu para ser tranquilo, pena ter tido malditos nervos desencapados. Alguém que, nalgum ponto ali na infância, tomou uma cajadada da vida quando soube talvez da fatalidade da morte, quebrando-se o écran para sempre.

Tinha toda vocação para respirar em paz, o Cobain. Tudo o que ele queria era cantar a sério (e não com aquele sarcasmo dolorido a pedir socorro) a canção dos Youngbloods — não é à toa que ele pôs o nome da banda de “Nirvana” (e depois estourou os miolos).

Sou assim também, desarranjado, de écran partido, erratic moody baby, com a tanga de crochê toda farofada de areia e tatuí, aquela puta tristeza de foca tomando cajadada na cabeça, sujando a areia de sangue jovem. No, I don’t have a gun. Nem julgo mais.

A vida demora tanto que nunca acaba, meu amigo, não adianta, porque assim é como ela funciona no meu universo de modelar… e haja peito para um suspiro assim tão vasto, triste e resignado.

Só peço aos anjos que resgatem Cobain do vale desesperado, frio, úmido e cagado da nossa imaginação/realidade.

(Post publicado no facebook em 20/03/15)