As armas e os barões assinalados

– Por isso é que eu te digo que o texto vale por si.
– Vale por si como?
– Vale por si, fala por si. Ele cria significado além da intenção do autor, saca?
– Ou vai ver você que acha que cria e vê significado onde não tem.
– Isso. Mas, se eu vi significado, ele significou alguma coisa, porra.
– Mas não foi o que o autor quis dizer.
– E qual o problema?
– A viagem é sua, não é do autor.
– E daí? O texto vale por si, entendeu?
– E o autor serve pra quê?
– Ele é tipo uma antena de ideias possíveis.
– Não fala merda! Você acha que o cara não tem intenção no que escreve?
– Claro que tem, mas isso não vem ao caso.
– Ah, cala a boca!
– Tô te falando. O texto é qualquer coisa, e não é nenhuma em especial. Nem a coisa que autor quis que fosse.
– É o mundo das ideias, tipo?
– Tipo. As ideias potenciais usam o fulano como cavalo, entendeu?
– E nasce o bebezinho-texto?
– É!
– E a intenção do autor não vale merda nenhuma?
– Vale só como mote pra fazer o texto existir, depois ele se vira sozinho.
– Que nem aquele fantasma do filme do nenê?
– Isso, uma aparição, uma doideira livre, uma coisa qualquer.
– Tipo os Lusíadas?
– Exatamente. Tipo Taprobana.
– Que quer dizer Taprobana? Nunca entendi.
– Não sei. Pra mim parece nome de rango. Sei lá, uma tapioca, só que uma tapioca mourisca.
– Meu! Rolou um puta déjà-vu agora!
– Xi, deu pau na Matrix.

(Conto escrito em 2004)

Lúcia

(Este relato pessoal sobre minha amiga Lúcia foi publicado como post em 2017)

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Conheci a Lúcia em 1996. Tinha ido fazer minha segunda faculdade em Salvador. Formado em jornalismo, quis estudar psicologia na federal baiana. Não deu nada certo: larguei o curso ainda nos primeiros meses e fiquei perdido e sozinho numa cidade estranha. O semestre em Salvador teria sido péssimo, não tivesse sido ótimo – por causa da Lúcia.

Ela foi minha melhor “amiga mulher” nesta vida. Digo assim porque amizade entre homem e mulher nunca é coisa simples. Eu a conheci numa festa. Ela estava dançando, e eu cheguei junto porque me senti atraído por ela. Naquela noite, a gente deu uns beijos e trocou telefones. Depois, saímos outras vezes, como se estivéssemos de rolo, digamos. Acontece que nossa conversa era tão interessante, mas tão interessante, que a gente ficava falando sem parar e esquecia de namorar.

No fim da noite, a gente dava um beijo protocolar, quiçá um selinho, na hora de se despedir, porque aquilo, afinal, era um “encontro”, certo? Mas, desde o começo, o sentimento de amor parecia maior do que a atração. Nosso sentimento sempre foi o da mais pura amizade. Amigos, amigos mesmo.

A Lúcia me mostrou Salvador e além: Piatã, Rio Vermelho, Amaralina, Jardim de Alah, Itapuã, mas também Arembepe e Cachoeira, uma cidadezinha do Recôncavo. Foi lá o tira-teima do status do nosso relacionamento. Viajávamos juntos, supostamente como ficantes, hospedados no mesmo quarto. Era para a gente dormir juntos, só podia. Mas chegou a noite e nada. Me deu sono, deitei numa cama e dormi. Ela dormiu na outra. No dia seguinte, sem que nada precisasse ser dito, soubemos que éramos e seríamos sempre amigos, os melhores amigos do mundo.

Resolvida a questão romântica, estávamos liberados para curtir o que mais gostávamos de fazer juntos: conversar, e conversar, e conversar sem parar como dois loucos. Sobre tudo, mas sobretudo psicologia e cultura. Aprendi muita coisa com a Lúcia. Ela falava de Pierre Verger, Dante, Thomas Mann e, claro, falava muito de Freud. Ela era psicanalista. Das boas. Tinha capacidade de interpretar as coisas, as questões que eu tinha, minhas dúvidas e conflitos, aos 25 anos, uns dois anos mais novo que ela.

Outro dia, estava folheando meu velho caderno de viagem da época, e lá, numa página, eu havia escrito assim: “Lúcia diz que existe um ‘gozo’ nessa minha indefinição de vida”. Estava perdido, sem saber aonde ir e o que fazer, e ela, com sua visão de raio-x, me falava de uma coisa que só hoje, 21 anos depois, consigo entender: a de que existe um ganho torto em todo sintoma, um gozo doloroso que se repete de forma mortífera, por ser uma defesa neurótica contra a angústia de outra dor, uma dor primitiva que nos devora.

A amiga, enfim, era muita areia pro meu caminhãozinho. Ela me falava de Goethe, e eu pedia para ela ouvir Mutantes. Ela me ensinava iorubá, e eu era o maluco do rock, que gostava de beber e fumar. Éramos como a música da Legião: “ela fazia medicina e falava alemão, e ele ainda nas aulinhas de inglês”. Não exatamente assim – mas bem assim no fim das contas.

Seu raio-x se voltava sobre ela também. Foi a primeira pessoa que vi se autoanalisando sem piedade. Uma vez, a gente voltava de uma cerveja com maniçoba no Rio Vermelho, e ela encanou, a sério, que tinha um carro seguindo a gente, como se fossem agentes assassinos da KGB. O problema é que ela é quem estava ao volante, muito nervosa, tentando fugir do carro, e podia nos matar. Segurei no braço dela: “Calma, Lúcia, não tem por que o carro estar seguindo a gente! Encosta aí, que ele vai passar batido”.

Dito e feito. Encostamos, o carro passou, e ela enfim se acalmou. Me disse algo que repetiria outras vezes em sua autoanálises pelas noites baianas: “Olha como eu sou neurótica!” Eu ria e a consolava, porque também começara a me debruçar sobre minha própria loucura. Naquela dupla, ninguém era normal, e tudo bem que fosse assim.

Então, depois de um semestre inteiro conversando sem parar sobre todas as coisas do mundo, voltei para São Paulo…

Na época, entenda, não havia celular, nem rede social, nem câmera digital. Lamento demais não ter nenhuma foto dela de lembrança. Mas, naquele tempo, as pessoas nem e-mail tinham. O que a gente tinha era o telefone fixo da casa dos pais, mais nada. E os dois mil quilômetros entre São Paulo e Salvador eram distância suficiente para congelar uma amizade no tempo.

Ficamos sem nos falar por sete anos. Daí, lá por 2003, fui passar um par de dias em Salvador. Dei um jeito de achá-la, depois de muita peleja. A gente se encontrou rapidamente num bar lá no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. Tínhamos duas horinhas, se tanto, pouco para falar como antes. Ela contou que estava casada e tinha um filhinho ainda bebê. Me lembro de sentir o quanto ela amava o filho e, também, de quanto gostava do nome que havia escolhido para ele: Theo.

Mas logo deu a hora. Lúcia levantou para ir embora. Ainda agora consigo vê-la caminhando em direção ao carro, com a Basílica de Salvador ao fundo. Penso se guardei a cena na memória por ter percebido que aquela seria a última vez que a veria.

Bem, pule aí mais 14 anos no tempo. Em 2017, tomei vergonha na cara e fui finalmente estudar psicanálise. Quis contar para minha amiga a novidade. Sobretudo porque, ao fuçar minha biblioteca, havia achado um livro de psicologia comprado em Salvador, em 96. Na folha de rosto, havia um recadinho, da Lúcia para mim, escrito em alemão, porque ela era muito chique! Era o convite para tomarmos uma cerveja. Puxa, mas como encontrá-la tanto tempo depois? Só me lembrava do nome de solteira dela, mais nada.

Depois de procurar um bocado, achei seu perfil no facebook, que dizia que ela agora morava na Espanha. Achei condizente com o chique da amiga. Mandei o pedido de amizade e um recadinho, e nada. Ela não respondia. Dias se passaram. Continuei procurando, até achar uma ação judicial de espólio por morte. A morte dela!

Fui tomado por um tristeza tão grande que só consegui dormir com o dia claro. Fritando na cama, lembrava das nossas conversas, agora sabendo que elas não se repetiriam. Me culpei por não ter procurado por ela antes, por não ter visitado a Lúcia na Espanha, no hospital, onde fosse. Depois, uma prima dela me contaria que Lúcia havia morrido de câncer, fazia um ano, depois de embate doloroso com a doença.

Não pude me despedir de você, minha querida, e por isso lamento demais. Queria te contar muitas coisas. Queria te reencontrar, me sentar com você e conversar de novo sobre todas as coisas do mundo. E dizer que eu te amo. Fica em paz, amiga. Um beijo e até um dia, quem sabe.

O recado dela no meu livro (o Raul foi por minha conta): Olá, Adriano! Como vão as coisas? Que tal? Tive uma ideia: podemos tomar mais uma cerveja. Saudações, Lúcia.

USP – 1994

Esta é uma página do TCC que apresentei à USP em 1994, ano do tetra e da morte de Senna. A monografia era sobre doença mental, e a imagem acima é xerox do caderno que foi levado a campo nessa reportagem diferente. Sete páginas desse caderno, com desenhos e frases minhas e dos pacientes, foram incluídas como apêndice da monografia. O pdf desse trabalho, chamado Os olhos da loucura, pode ser baixado aqui.

Gorilas brasileiros fogem de zoo na Malásia

KOTA KINABALU (Reuters) – Dois gorilas brasileiros fugiram ontem de um zoológico em Kota Kinabalu, Malásia. Os animais foram importados do Brasil há dois anos e já haviam se metido em outras encrencas.

Os macacos “Ronildo” e “Ronaldo”, como foram batizados ainda em terras brasileiras, não demoraram muito até causar problemas ao zoológico e ao governo malaio.

Um deles era comumente visto em sua jaula amarrado numa flâmula verde-e-amarela, bêbado, levantando o dedo médio e mexendo a mandíbula como se gritasse “Brasil! Brasil!”.

Autoridades malaias informaram nesta manhã que o gorila conhecido como Ronildo estaria cercado pela polícia no quintal de uma residência contígua ao parque zoológico. Ronildo, entre outras acusações, teria causado cenas de atentado violento ao pudor.

Segundo o aspira da PM paulista que comanda as operações aqui em Kota Kinabalu, tenente Leôncio Mendonça, o macaco não ajuda com as pretensões do governo Lula de se firmar como um líder mundial da paz.

“Esses macacos brasileiros vêm pra cá denegrir a imagem do Brasil lá fora”, consternou-se Mendonça ao final da entrevista.

(Post dos anos zero.)

Du weißt nichts, unschuldig?

Ok, então suingamos entre a ânsia pelo sentimento oceânico e o desejo de sermos diferentes. Tá bom, eu acho justo. Um projetinho heroico que fosse o de escrever “coisas bonitas” com vistas a “salvar o mundo” – digamos que este seja o causa sui de um amigo meu, não o meu – enfim, um projetinho assim buscaria o especialismo através do comércio deslavado do sentimentalismo praiano.

Não fosse isso, a alternativa para mim, digo, para o meu amigo, seria a de escrever uma novela com Nietzsche de persona principal, uma espécie de santo guerreiro contra o dragão da maldade. Veja bem, não seria exatamente o Nietzsche, mas o Belchior fazendo o papel de Nietzsche, como já expus certa feita. Mas imagine o seguinte: Belchior/Nietzsche teria um antagonista chamado magnífico-reitor Luiz Vago, kantiano de carteirinha. Doutor Vago, com o peito inflado tal qual pombo no cio, diria, por exemplo, assim:

– Os objetos em si de modo algum nos são conhecidos e os por nós denominados objetos externos não passam de meras representações da nossa sensibilidade, cuja forma é o espaço e cujo verdadeiro correlatum, contudo, isto é, a coisa em si mesma, não é nem pode ser conhecida com a mesma e pela qual também jamais se pergunta na experiência…

Nessa hora, interrompendo a peroração, Nietzsche entraria bêbado na sala e diria, “O Brasil está morto! Viva o Brasil!”. Do peito de pombo do magnífico reitor, sem que ele desejasse ou tivesse o mais vago controle, explodiria então o Compadre Washington, à guisa de alvissareiro daímôn, dizendo, “Assim você vai matar papai, viu?”

O sururu carnavalesco que daí adviria eu tenho preguiça de escrever agora como seria. Entenda apenas que Belchior, digo, Nietzsche andaria pelo Brasil todo desmascarando os ídolos de pés de barro do tal sentimentalismo praiano. O último deles seria eu próprio, digo, aquele amigo meu de quem já falávamos, e nós não teríamos saída que não fosse a de rendermo-nos ao tchan.

Toda a história, graças à preguiça, se desenrolaria muito desleixada e aceleradamente, como uma saga dos Buendía mal escrita à beça. Cento e oito personagens é um mínimo razoável a se esperar. E o epílogo seria tão borocoxô e antionda como este aqui, depois não diga que eu não avisei…

(Post de blogue da década de 10)

“Agora ficou fácil, todo mundo compreende”, filosofa Friedrich Nietzsche, no estúdio, durante a gravação do hit “Sabe de nada, inocente!”

Duplas caipiras

Pero Vaz & Missivista
Marsupial & Placentário
Mata Rato & Cangibrina
Ancilóstomo & Saginata
Paquete & Corrimento
Espaguete & Canudinho
Zé Formando & Paraninfo
Expoente & Al Quadrado
Regredido & Retardado
Verídico & Juramentado
Dá Um Tempo & Chegadílson

(Post de blogue de meados da década de 10)

Fade to black

Eu era aquariano até uns tempos atrás. Havia, no entanto, a precessão dos equinócios, de que ninguém me havia falado. Um belo dia, então, virei capricorniano, e nem faz mal, porque agora penso que posso dar certo no final (embora não me fie muito mais nas esferas).

Só que ainda há um restolho de condicionamento aquariano, a vontade de ter a máquina do tempo, por exemplo. E eu podia tê-la, só não sabia. Comprei um all star depois de duas ou três décadas – décadas longas, que curiosamente passaram tão rápido quanto a ultrapassagem que faço, na anhanguera, sobre um biarticulado infinito, cheio de cana e poeira.

Hoje saí andando por aí, com minha máquina do tempo, vendo projetado na ponta branca do tênis o passado distante, de quando andava com as galeras das franjas de sampa, pegando um ônibus vespertino, preguiçoso, com uma fita de cromo no bolso para gravar o ride the lightning do metallica.

Sempre houve sobre as costas dessa minha geração xis-maionese uma mochila cheia de banzo dos anos que não vivemos, a sombra dos hippies tristes. Longo suspiro. O mundo era lento, triste e bom. Todo mundo era ingênuo e jovem. E hoje meus amigos começam a morrer, num fade to black que não tem mais fim.

(Post de facebook, sei lá de quando, meados da década de 10)

Jack in the box

– Virioto, nos traga mais um trago, se nos faz favor. E vai rápido!

“Pois não”. Esta é a resposta que o garção do estabelecimento poderia ter estabelecido a Tibério, o tabelião. Mas não o fez. Primeiro porque o cliente não se chamava Tibério, segundo porque ele não era tabelião e, para entrar no terreno exclusivo das verdades, digamos que ao garção a palavra “tabelião” não significava nadica de tábua.

Para ele, tabelião era coisa da época do Nelson, vez em que o mundo era o Rio, e o Rio era composto por legiões de Palhares, todos eles casados com mulheres bem nos conformes do gosto da rapaziada, todas elas prevaricando em companhia dos filhos de tabeliões, em bairros, bairrinhos, corgotes e vielas do Rio. Coisas como Grajaú.

Pois bem. Era do tempo do Nelson ou quem sabe do Rosa, aquele que, amuntado no baio, cuspiu em todos os candidatos à ABL: “depois de mim, ninguém mais”.

De fato. O Rosa e seus modinhos de crocitar neologismos eram do peru. E o Rosa, pensando bem, bem que poderia ter nos contado dos barnabés de crachá nos peitos a dizer: tabelião. Mas não, só falava de capiauzinhos, dos pequenos e dos graúdos.

Enfim, o ponto a se deixar bem claro aqui é um só e é só este: o garção não sabia nem o nome nem a profissão do moço acolá. Donde preferiu emudecer.

Resignou-se a trazer mais um trago ao ex-possível tabelião, ao ex-provável Tibério e a seu companheiro, um homem gordo com cara de se chamar Elias. “Tibério e Elias, pois sim”, pensou o garção, “são uns bons duns filhos das putas esses dois aí. Onde já se viu sair com essas folganças? Vou picar-lhes as tripas”.

Como diria o Rosa, cão que beiça não grinfa, então o garção resolveu servi-los e pronto.

– Prontinho. A cerveja que o senhor pediu.

– Eu não pedi cerveja porra nenhuma. Pedi um trago. Não fode!

Se Virioto, o garção, fosse peitudo (de peito cabeludo), teria dito bem assim ao cara: “como não fode? Não fode o senhor! Você e seu amigo aí, tabeliões nojentos, enchendo a cara a noite toda que nem uns ursos bêbados. Vocês são bem uns Palhares do Nelson, suas mulheres saltitam por aí e há vários a lhes colher as tenras conas!”

Porém não disse, que não tinha peito nem cabelo para tanto. Tratou de tratá-los bem.

– Oh, me desculpe. Quando o senhor disse “quero mais um trago”, entendi que continuariam bebericando a cervejinha especial da casa, como, por sinal, estão fazendo há duas horas: só na brisca. Então, veja, seu…, como é seu nome?, pois então senhor Alberto, vocês estavam só na brita e o “mais um trago”, veja, o “mais um trago” me pareceu, senhor, pareceu-me que o senhor tinha sugerido uma nova e gélida e loura cervejinha especial da casa, o senhor entende, não entende?

– Bom, pro inferno. Traga aí duas caipirolas de vódega. E rapidinho, senão vai ter morte aqui.

– Pois não, seu Alberto.

– Seu Alberto é a puta que o pariu! Pra você é doutor Alberto.

– Tá certo, doutor Alberto. As caipirinhas num minutinho.

O garção volta esmagando as tripas com os músculos abdominais. Se pudesse, ah se pudesse, arrancaria o coração do pulha do Alberto a dentadas. Depois tirava foto da sangueira toda e mandava para mãe dele, só de raiva hereditária e consanguínea que sentia. Mas era um murchão, essa é que é a verdade. Ficou a fazer cera, fê-la enquanto pôde, mas teve de voltar com as duas caiporinhas amarelas ordenadas pelo Alberto e seu colega.

– Prontinho, doutor Alberto. Aqui estão as caipirolas.

– Demorou muito. Leva essa bosta embora que já deve ter azedado o limão. Traz a cevada especial da casa mesmo. E vai rápido, seu merda!

– Pois não, doutor… arf, arf…. pois… não… aaaahhh… VAI PRA PUTA QUE PARIU CORNO FILHO DA PUTA!!

A saraivada enlouquecida de perdigotos iracundos do velho Virioto esculhambou os alicerces do seu Alberto e amigo – que, na verdade, era um boneco de cera, pois Alberto era um doente mental e precisava andar com o companheiro imaginário. Os dois tiveram seus crânios explodidos pela fúria sísmica do cabra Virioto.

Foi assim a história.

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(verdade que contatei o Rosa tempos depois e ele me disse que aquilo, onde já se viu, não era final prum causo que se prezasse, que a história do boneco de cera era indecente, que pelo menos nas antigas não era assim, que já tinha sido demais o final do conto anterior, uma piadinha ridícula que só entenderia quem tivesse o disco do Caetano, e piririx e pororox, mas daí eu me emputeci e pedi pro médium encerrar a sessão, e foi câmbio-desligo… pu pu pu pu pu…)

(Conto escrito no começo dos anos 2000)

“Depois de mim, ninguém mais.”

Encontro de Nietzsche e Sócrates no além

Depois de mais de um século se contorcendo no limbo, Friedrich Nietzsche enxerga luz forte penetrando na bruma e a segue.

A bruma é um túnel que acaba por dar numa praia. Não há nada além do perfeito: gaivotas, areia, sol e mar. Mas ao longe vê um velho com aspecto de ermitão, roupas surradas e cajado de apoio.

Nietzsche começa a andar na direção do velho, ajudado por outro cajado, este em sua mão direita. O sol lhe bate pelo flanco esquerdo, com a inclinação da luz da tarde, escorregando sobre a areia a sombra do magnífico bigode do filósofo.

O ermitão lhe responde o olhar, sorri e devolve a caminhada em direção a Nietzsche. De frente ao eremita, o invasor da praia anuncia:

– Salve. Sou Zaratustra, o sem-Deus. Poderias me informar onde estou?

– Salve, profeta. Bem te conheço, por certo mais do que imaginas.

– Sabes? Como poderias sabê-lo se ninguém, além de demônios escuros, encontro já há tanto tempo que nem sei.

– Há mais de cem anos, nobre Zaratustra. Pelo tempo de Gaia, há mais de cem anos…

– Como poderias sabê-lo?

– Como tu, também já fui chamado de sábio, apesar de ter tido a consciência sempre de que não o era.

– Qual é teu nome, anacoreta?

– Meu nome é Sócrates e sei quem tu és, Zaratustra.

– Sócrates? Então dizes que estou olhando para o assassino de Dionísio?

– Tuas teorias estavam erradas, Zaratustra. Tu não és ponte de nada a lugar algum, sinto dizer-te, malgrado possa ainda te contar mais sobre teu engano se assim o desejares.

– Cala-te, histrião! O que haveria a ser criado se deuses existissem? Se algo criei, tais teorias como dizes, elas são minhas e teu Deus está mesmo morto.

– Estás enganado, sinto muito.

– Sentes muito? Ah, a compaixão… o algoz do teu Deus! A mim mais te pareces com João Batista do que com Sócrates. A verdade é que sempre foste apenas um anão maldito, um servo precoce do profeta hebreu!

– Zaratustra, foste tu quem sempre quis a senda heróica do profeta salvador, não eu.

– Cala-te, fariseu!

– Observa e conclui que a verdade te é dita. A vontade de potência, a tua verrina sobre ela, esta sim é teu algoz, o instrumento de tortura que usaste para imolares a ti mesmo, como um asceta que calado se castiga na caverna. Tuas palavras te denunciam.

– Eu sou Zaratustra, o mais devoto de todos os que não acreditam em Deus! Não entendes que tudo era apenas ironia?

– Sim, era tanta que não sabes se a cobra tragou a própria cauda. Tu estás perdido, homem. E eu contigo, que és parte de mim. Somos pensamentos somente, vagas minúsculas em fugaz reflexo sobre o contínuo. Pensa com coragem. Tua imolação e tua tragédia, não era o que avidamente procuravas? Vê, mesmo com tanta dor não largaste o flagelo que trazes em tuas mãos.

Nesse momento, Nietzsche baixa os olhos e descobre um flagelo ensanguentado em vez do cajado que julgava carregar. Sócrates permanece imóvel, como o Crucificado, há tristeza em seus olhos.

A vista de Nietzsche se embaça, as cores se borram e enfumaçam. O buraco do medo e dos demônios escuros que o torturavam começa a sugá-lo de volta. Sente uma pressão horrorosa na barriga, a cruz do sacerdócio que tanto buscou. Quer agora ter vontade, mas fraqueja e é engolido.

Na praia, não há mais Nietzsche. Apenas gaivotas, o sol do fim da tarde, a brisa do mar. E Sócrates, que suspira profundamente.

(Conto velho, do começo dos anos 2000, acho)

Līlā

– Seu vedantista de meia tigela! – gritaram os moleques da pracinha de baixo de casa, enquanto atiravam pedras e mamonas estilingadas na minha pessoa.

Corri como pude e consegui despistá-los, apesar da corpulência adquirida com ovos de páscoa recentes. Ofegante, pedi água para uma senhorinha que varria a calçada. O nome dela era Dona Eudes, evangélica. Me convidou para entrar.

Quando mencionei Brahman, ela começou a falar lindamente sobre o Salvador. “Você não vê que o Senhor só quer o seu bem aqui na terra, moço?” Depois, fez uma daquelas preces emocionadas dos protestantes. Saí de lá mais tranquilo.

Passando em frente da igreja de Santa Ângela, resolvi entrar. Queria rever uma boa imagem de Maria de Nazaré que havia na igreja. Chegou o padre e se apresentou, perguntando se era devoto de Nossa Senhora. Disse a ele que não, imagina, era vedantista, ainda há pouco recitava os Upanishads e tal.

“Ahã”, fez o padre. Pôs a mão no meu ombro e falou: “Meu filho, pra que essa filosofia toda? O mundo é real, não está vendo? O que pode ser mais real do que este mundo criado pelo Pai?”

Eu, na hora, lembrei da mamonada que ardia na batata da perna esquerda. Me despedi, agradecido, e saí da igreja.

No caminho para casa, lembrei de um ponto da Umbanda que sempre me emocionou. Lembrei do Poverello, da Mãe Kāli. Lembrei de Shakyamuni, de Raimundo Irineu Serra, da casa de Eurípedes em Sacramento. Lembrei até que havia aprendido com os seres da floresta a assobiar para encontrar lenha.

Para alongar os pensamentos, quis passar na praça de cima de casa. E veja só. Sentado no banco da praça, estava o mestre em pessoa.

Cheguei de mansinho e me sentei ao lado dele, que cofiava a barba grisalha. Eu disse “Om Tat Sat”, à guisa de cumprimento, mas o mestre riu, debochado. O sol já encostava no horizonte, as maritacas faziam aquela zuada estridente.

O mestre se volta para mim: “Deixa eu lhe dizer uma coisa. Nitya e Līlā pertencem à mesma Realidade. Por isso, eu aceito tudo: o Absoluto, mas o Relativo também. Não fico dizendo que o mundo é ilusão. O devoto superior de Deus aceita tanto o Absoluto quanto o Relativo. É como a vaca que dá rios de leite.”

Rio da comparação que ele faz. O mestre, então, se levanta. Em êxtase, olha para a nuvem de chuva que passa sobre nossas cabeças. Quero insistir com ele, mas já não tenho convicção de mais nada. Penso em citar o Vivekachudamani, só que a mamonada ainda arde na perna.

De repente, o mestre cai na gargalhada. Divertindo-se à beça, olha bem fundo nos meus olhos e fala, como se fosse um moleque da praça:

– Seu vedantista de meia tigela!

(Conto escrito c. 2016, editado em 2021)

Deixa as alma trabalhar

PS… 👇

O corredor

O corredor tem espécie de pés aplainados. Usa tênis motion control por ruindade de karma: decepara por maldade o pé de um cruzado, em 1178, noutra encarnação. No fim do outono de 2005, porém, o corredor segue rumo aos montes à sua frente.

Na primeira elevação, vê um trio de paulistanos tomando chope. Aperta o passo fundo no pisante contra pronação, para ouvir o que dizem eles.

Em meio ao bafo de chope e à bruma de nicotina, falam dos diversos tipos de Marlboro: azul, quase-azul, cinzinha, doirado, bicolor de bolinhas explosivas. Todos eles, sem exceção, dizem que homem é quem fuma o vermelho.

O corredor, que não fuma mais, deixa de lado fumantes e segue ao próximo monte. Na elevação seguinte, está um casal de namorados brigando. Acusam-se de egoístas, gritam diante do espelho.

O corredor aperta o passo, conferindo as pancadas no frequencímetro de pulso, limpa o suor da testa e segue em frente. O monte seguinte logo se apresenta.

Ali, uma missa negra encomendada por um político mineiro. O deputado está vestido de aprendiz de demônio, ajoelhado na frente da entidade.

A entidade é leva-e-traz do destino. Quem suja a mão é o político. Ele levanta às mãos ao anjo da sombra, pede poder em Brasília. O corredor fecha os olhos na hora em que o deputado passa a faca no pescoço do bode.

Correndo ainda, segue com medo. O pulso cresce no frequencímetro. O corredor vislumbra o monte seguinte, mais alto do que os anteriores

Lá no cume, um vulto. O pulso quase explode, o suor empapa a camisa do corredor. Sobe sobre o monte, sobe. Finalmente chega ao vulto – que de perto não é mais vulto.

É um homem. Um velho, para melhor dizer. O velho traz um bebê nos braços. E esse bebê é o fazedor de sonhos da mente do corredor. Movimento rápido dos olhos.

(Continho publicado em blogue, em 14/06/05, e editado em 2021)

I pray thee, Lord, my soul to keep

Psiconautas

Duas lanternas e um lampião alumiam o caminho estreito, ladeado por chacronas e espadas-de-são-jorge. A trilha corre enlameada por conta da chuva do dia anterior, mas esta é uma noite de céu aberto, aquela profusão de estrelas só possível a bons quilômetros da capital paulista.

As lanternas vão nas mãos de Carneiro e Alex. O lampião balança a palmo e meio do chão, carregado pelo líder do grupo. Simões é chamado por eles de “Velho”.

É jeito de falar. Tem cinquenta e poucos, idade não muito superior a dos outros dois. Mas o Velho é o mais experiente na senda do Daime, tem ascendência psicodélica sobre os companheiros.

Rumam na direção do “terreirinho”, batidão de terra nos fundos do sítio onde estão, local do aguardado “trabalho de cura”. Sobre eles, o céu perfurado de estrelas do manto da galáxia. O Velho fala com orgulho do sofrimento passado sob o efeito do chá alucinógeno:

– Teve uma vez que eu e o Gilson fizemos um trabalho de cura lá no Matutu. Nossa senhora! A gente estava muito “pegado”, o Gilson vomitando as tripas. Peia brava. Acabei numas regiões muito feias do astral. A quantidade de bicho feio que eu vi não foi brincadeira.

– Bicho feio? – pergunta Alex, neófito da bebida mágica, com medo do seu primeiro trabalho de cura: um Daime servido mais forte, concentrado, meloso.

– Bicho feio, seres do astral. Seres não muito evoluídos que vêm tentar tirar a gente do prumo, que vêm pra meter medo.

Carneiro, até então calado no fim da fila, com olhar firme no facho da lanterna, também põe orgulho no próprio sofrimento lisérgico:

– Uma vez, Alex, eu vi uma legião de demônios. Eles tentaram arrancar meu coração. Quando achei que ia morrer, depois de ter vomitado, me mijado e me cagado todo, Ogum me protegeu daqueles seres. – conta o Carneiro, todo satisfeito. O Velho retoma a lição:

– Ogum é a melhor proteção nessas horas, além da Rainha – explica, apontando depois para as espadas-de-são-jorge – É muito bom fazer uns banhos com a espada-de-ogum pra se proteger.

Simões segue a linha tradicional, mas desenvolve sua própria liturgia pelos interstícios. Agrega forças de Umbanda nas sessões de cura. Anos de psicodelismo não haviam resultado em algo muito coeso. O Velho tem vasta milhagem psicodélica. Qual a conclusão disso, entretanto, difícil de se dizer.

Antes de iniciarem a caminhada rumo ao “terreirinho”, quando ainda tomavam café e jogavam conversa fora, Alex havia perguntado a Simões qual o progresso conseguido depois de décadas tomando alucinógenos, Daime, ayahuascas peruanas e peiotes mexicanos. O Velho foi vago. Disse que havia aprendido muito, sem contar o quê.

Chegam ao terreirinho. Sentam-se os três em cadeiras de praia, postadas em ângulos de cento e vinte graus, como vértices de um triângulo equilátero. O triangulo está encaixado num círculo imaginário. Por ali, correrá a corrente de força criada pelos três durante a função.

Faz muito frio. Usam capotes pesados, cachecóis e gorros de lã. O lampião e as lanternas são apagados. A única fonte de luz é a vela colocada sobre a mesinha no centro do triângulo, junto a garrafa da bebida concentrada.

Carneiro é encarregado de servir as doses, Simões fica com o comando do trabalho. E Alex reza para que a viagem corra macia. Simões pede que todos se levantem:

– Vamos abrir, então, mais um trabalho de cura. Pedimos que os seres de luz que nos acompanham possam nos guiar nessa noite. Estamos aqui para curar todas nossas enfermidades, físicas e espirituais. Pedimos a proteção de Jesus Cristo Redentor, da Sempre Virgem Maria e de todos seres divinos da Corte Celestial. Bom trabalho a todos.

Dito isso, o Velho deixa de lado a retórica cristã para se mover pelo arcaico. Pega o chocalho e começa a andar por fora do círculo, parando em alguns pontos, segundo a presença ou a ausência de suposto componente invisível.

Balança o instrumento e solta estalos esquisitos com a boca, como se invocasse ou enxotasse forças ocultas. Alex desconfia da percepção sutil de Simões, pressente encenação.

As primeiras doses são servidas. Alex relembra do gosto ruim do chá de cor barrenta, mistura de jagube e rainha, fundidos na água. “É o gosto da mãe-terra”, ele pensa. A vela é apagada e resta apenas a luz das estrelas na calota do céu. O silêncio é imenso.

Vinte minutos se passam até que a mudança de consciência seja notada por Alex. Quando vê, já não é mais o mesmo. A realidade amoleceu. Pode voar com a mente, mas não controla o voo. Vai pelo fio da navalha, qualquer descuido com os pensamentos o leva ao inferno. Uma onda fria de medo.

“Não existe nada a não ser o amor”, Alex repete mentalmente para controlar a vertigem. Abre os olhos e vê seus companheiros, tão humanos. Surge na mente o pensamento de ser especial, mais evoluído que os outros dois ali na roda. A ideia, de início prazerosa, começa a virar dor. Uma sequência de pensamentos de culpa lhe rouba o equilíbrio.

Há interconexão das mentes na roda. Carneiro está vomitando, e Alex sente no próprio estômago o Daime sacolejando. Ele diz à bebida: “Somos irmãos, feitos da mesma terra, não precisamos brigar. Somos feitos da mesma substância”. Acalma-se.

Uma nova dose é servida, Simões começa a cantar hinos sofridos, invocando cobras corais. As cobras logo tomam o terreno em volta, vívidas na “miração” dos três. São frias e hostis, enroladas em grandes montes espalhados pelo terreirinho.

“Ah, a obsessão pela cruz”, pensa Alex. A mesma cruz desenhada no peito pelos companheiros de roda depois que viram suas doses de Daime. “Por que um Deus crucificado?”

Vê o sofrimento e a beleza dos dois parceiros ali na roda. Quer ajudá-los. Então, ouve uma voz clara em sua mente: “Não tente ajudar quem não quer ser ajudado.”

Daí, um mergulho no silêncio, alheio ao que acontece do lado de fora. Por dentro, vai até um mundo de arco-íris, onde encontra um iogue que ele conhecia de um livro. Vai a lugares dos quais nunca se lembrará quando voltar.

Meia hora depois, o Velho começa a puxar os últimos hinos da noite, mais alegres e próprios para a aterrissagem. Alex abre os olhos e sente a presença sólida do amor por tudo em volta. Sabe que o olhar curioso dos dois amigos lhe obriga a voltar ao velho Alex, deixando a onda alucinógena partir, como o sonho que se esvai pela manhã.

Simões parece ter voltado ao normal. Chega a fumar cigarros de filtro vermelho entre um hino e outro. Pergunta se todos estão bem e pede para que se levantem. Toma a palavra depois dos três rezarem o Pai Nosso:

– Agradecemos a oportunidade desse trabalho de cura. Agradecemos a Deus, a Jesus Cristo e à Virgem da Conceição por suas bençãos. Agradecemos aos seres divinos e também àqueles não tão divinos que nos visitaram hoje. Aprendemos com todos eles. Dou o trabalho por encerrado.

Os três homens ali reunidos sorriem e batem palmas, sobreviveram.

Alex senta-se novamente, ainda aproveitando o sonho alucinógeno que vai se desfazendo. Simões e Carneiro estão em pé, excitados, comentando sobre experiências do trabalho. Alex assiste à formação daqueles sujeitos, os homens se conformando aos seus personagens, ajeitando-se às molduras da personalidade. Sabe que também terá de voltar a ser o mesmo de sempre.

Rende-se ao convite, levanta da cadeira, sorri para os dois companheiros. Pede a Simões um cigarro. Os três egos agora reconstruídos começam silenciosos a caminhada de volta. Querem apenas comer alguma coisa quente e se jogar numa cama limpa. Querem agora o sono da inconsciência.

(Conto escrito c. 2002 e atualizado em 2021)

Enxotando os malfazejos

Short Cuts

Pibu, o pacu, nasce roxinho-roxinho. Tem pulmões em vez de guelras e, pof, explode que nem baiacu. Chora o ribeirão.

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Eu, eu, eu, Riobaldo se fodeu – dizem os jagunços que não largam do pé do personagem de João Guimarães Rosa. Tudo porque Diadorim, no fim das contas, era uma belíssima duma Bruna Lombardi, e agora é tarde. De cócoras, num canto, mascando talo de capim, Riobaldo quer é matar o bardo de Cordisburgo. Quer gritar pra todo mundo que como escritor o Rosa era mesmo um excelente botânico, no máximo um lexicógrafo passável, aquele fio dua égua.

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O coração disparou quando ela o viu tomando cerveja no bar com os amigos: jeans velho, camiseta preta, dois brincos de argola na orelha direita, caixinha de Marlboro sobre a mesa. Já tinham se passado uns bons anos, e ele continuava igual, bonito e charmoso como sempre. Ela, diferente, mais gordinha, corte de cabelo de senhora comportada. Depois de se abraçarem e falarem juntos “quanto tempo”, não teve coragem de contar que era casada e tinha dois filhos pequenos, um deles doentinho em casa, esperando pelo remédio que ela tinha saído para comprar.

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Candinha faz que faz jus ao nome, mas qual. Usa os molequinhos da ONG Saci Nervoso para levar as pedras pros playboys da zona sul. Os moleques vão e voltam numa pernada só, e Candinha faz caixa pra comprar uma AK e pintá-la de ouro pra vingar a morte de Bem-Te-Vi.

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Madonna Ciccone chamou-se Rubens na próxima encarnação. Franco, probo, vasto e gordo, seu Rubens – o popular Rubinho da Vila Prudente – chegou rosado aos 60, sempre de camisa xadrez e boina de lã. Era em tudo um tradicionalista, quem diria. Na vitrola, só Cyndi Lauper.

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Zé Touro, o ganso-homem, coaxava igual peru. Galinhou-se pros lados da Vila Pavão e emburrou no pet shop. Lágrimas de crocodilo, olhos de lince, gogó de avestruz. Gostava de Roberto Carlos Braga – pô, bicho.

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Menino Malufinho brinca de fazer castelinho. Quinze graus de miopia aos 6 anos, contrata uns guris para a empreita. Com a areia licitada, daria pra fazer frente a Gizé. E ainda sobrava prum Colosso de Rodes.

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Vinha o portuga pelo deserto no pelo de um animal de raça, um dromedário mouco. Vinha meio bêbedo, sobre o pelo suado do animal. Contra o sol escaldante, olhava duro o pedaço de papel trazido na mão, papel que lhe indicava o sentido da sua vida. Era grego, porém, e dizia algo como: xpóvia. Ao pobre portuga, que Nuno se chamava, só restava amaldiçoar a má sorte do povo de Portugal.

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Adriano Quadrado, escritor anônimo, publica em seu blogue. Ninguém o lê.

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Na faculdade, o gênio incompreendido gosta de citar Baudelaire. Les Fleurs du Mal, no beicinho dir-lho-ia. Mas comeu mal uma coxa de frango no bar de Loló e agora castiga a porcelana do centro acadêmico.

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Após cento e dois anos a serviço do escrete nacional, Mário Jorge Lobo Zagallo deixa esta terra sofrida. Seu corpo é empalhado por ordem de Ricardo Teixeira Neto. Eterniza-se daquele mesmo jeitinho: cabeleira branca, abrigo esportivo, rosto sanguíneo igual a um peru. Daí em diante, é colocado no banco em todos os jogos da seleção. Para todo sempre.

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Ramiro Pengaba vinha pela estrada ensolarada tal qual um monge mendicante de Benares. Tinha o peito cabeludo e vastíssimo, não temia a homem nem a bicho do além. Mas não sabia que seu mundo era pequeno. E os insetos que vagam pelos charcos têm poucas chances de alcançar o oceano.

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A única ideia que Vacacorso teve na vida foi um trocadilho de qualidade duvidosa: Estrogonhoque. Tanto que resolveu abrir um restaurante mezza-russo mezza-napolitano só para exibir em néon sua ideia solitária. Deu com os burros n’água, infelizmente. Creme de leite, carne de segunda e pelotas de batata com molho ao sugo resultavam numa mistura pra lá de infame.

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Cremildo, depois de enfileirar um estranhéguer, três porradinhas de cana com crush, cinco malt-nojentas, uma vódega e um cuígue, mais a medonha batida de coco com muito leite condensado, chega em casa em petição de miséria. Corre pro banheiro para vomitar, mas, quando baixa a cabeça, pressente a diarreia. Indeciso entre enfiar a cara ou a bunda na privada, opta por um movimento ousado. Entra no box, abre o chuveiro e explode lá dentro.

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O embate final entre os terráqueos e os klíngons se dá entre o paraibano Dirceu e o klíngon Zyxar. Trata-se de uma competição de insultos, quem ganhar leva o planeta. Zyxar bem que tenta, traz algumas maldades psicofágicas no bolso do colete, mas zoar um lagartão de colete era mesmo covardia.

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Ariosto, um nome, uma lenda. Gostava de risotos, vivia constipado. Aos quarenta, deixou o time dos solteirões para juntar seus trapos com os de Piabinha, a mulher-peixe. Uma história de amor como outra qualquer, que não mereceria mais do que poucas linhas num blogue obscuro.

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Sinhazinha, tão clarinha, corre pro escuro do mato para se encontrar com Egbá, se entregar ao corpo negro de Egbá. Suados, gemendo a poucos metros da janela do quarto de Dom Nuno Ramos Sardinha, que ressona na ilusão de que poderia controlar o mundo.

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Adriano Quadrado, escritor inaudito, escuta o barulhinho solitário do teclado beliscando o silêncio da casa cheia de goteiras. Escreve em vão.

(Post de blog publicado em 2003 e editado em 2021)

“Não há nada fora do texto”

Meu dono é um francês chamado Derrida. Fosse ele aqui, me chamaria de “minha plúmbea máquina de escrever”. Se me premeditasse naquilo que prestes estou a revelar, diria troçando ser meu idioma “o desfaçatez”. Viria com a história de que até a máquina fala por símbolos, no ranger do inapreensível, na busca pela verdade adiada, no devir.

Encheu papéis para descrever-me, eu que escrevia a mim mesmo, já que nada é senão mente — algo que neste instante capto em minha abdução peirceana, pelo lume que adentra os vãos da cortina de placas fixas — justo agora que nem de um Carlos Sandro se careceria para entender a metalinguagem da máquina que batuca histórias sobre si mesma.

Na zona do agrião, no bafafá do bololô, no inglório dia do julgamento final dos pensadores, meu dono saberá que tudo lhe seria ainda mais assombroso. Ali, de frente ao deus, andando de lá para cá, choroso.

Com meu metal e meus semióticos botões de plástico apertados contra a pele da pança carnosa, ele verá uma estranha luz difusa nunca dantes notada, espalhando-se por tudo, nascendo do ponto para onde jamais havia voltado a vista. E perceberá o olho brilhante do fílmico projetor da realidade que nunca houve.

(Conto escrito em 2004)