Sonho n° 36

A máquina fazedora de sonhos

Sonho que estamos eu e minha mãe na ponte de Santa Clara, sobre o rio Mondego, em Coimbra.

Estou debruçado na grade de proteção da ponte, observando o leito do rio. Vejo uma caneta esferográfica boiando sobre as águas, descendo no fluxo do Mondego.

Faço um experimento para tentar puxar a caneta com a força da minha mente e, realmente, consigo. A caneta retrocede metro e meio contra o fluxo do rio. Paro de exercer o controle mental, e ela retoma o movimento rio abaixo.

Surge uma mulher que comenta sobre a caneta boiando. Viro para ela e digo:

— Esse é o peixe mais lindo de todos.

A mulher vê um belo passarinho, que passa voando pela gente. Para agradá-la, sigo o passarinho para fotografá-lo com o meu celular. Disparo a câmera várias vezes. Quando vou ver o resultado, há ali um filme, e não uma sequência de fotos, como se era de esperar.

Descubro que o Facebook desenvolveu uma função de criar sonhos, no sentido freudiano de realização de desejos. A ferramenta usa as fotos do celular para criar um sonho desejado pela pessoa.

No filme, o passarinho aparece em close-up e detalhes. A mulher surge também como personagem do filme, andando de esqui sobre o rio Mondego, acompanhada de um homem com quem já teve um caso amoroso.

Resolvo experimentar o novo recurso de sonhos da rede social, faço uma filmagem com minha câmera. Vou ver o resultado.

No filme, aparece um herói chamado Platonic Hill, cujos episódios são formados pela câmera do celular. Ele aparece num episódio em que há uma linda moça comilona.

Há umas 15 ou 20 pessoas reunidas em frente a uma enorme tela para ver o episódio em que o Platonic Hill vai salvar a comilona, que está para cair numa armadilha.

A moça está nadando numa piscina. Aparece o vilão. Ele solta cheiro de carne assada na água. Depois, coloca na piscina um boneco que parece ser feito de carne assada. Quando a comilona chega perto para comer, ela descobre que o boneco, na verdade, é feito de fezes.

A moça começa a passar mal e se debater de nojo na água. Mas Platonic Hill sai voando e mergulha na piscina para salvá-la com um kit médico para prestar os primeiros socorros.

Então, eu acordo.

(Sonho anotado em 16/07/17)

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A ponte de Santa Clara, sobre o rio Mondego

Substâncias

Sob efeito do violentíssimo composto,
Rujo perdigotos na mesa do bar,
Quase a destroncar a cacunda num
Girocóptero esfinctóreo-reptiliano, num
Escândalo de fazer inveja a homem-bomba,
Justo no fino instante de gozo
De suas íntimas partes em fusão.

Entendo que o povo bom deste país –
Dona Amália, Seu Eulálio, menino Ronan –
Muito entendo estejam todos putíssimos
Pois criam que de bom tom seria
Me abstivesse de derramar por
Sobre o fim de tarde alheio todo este
Meu infeliz desconjunto. Eu entendo.

Mas olha que pior seria se barrasse
Meus sismos, cismas, meus sintomas,
Minhas sarnas, puns e condilomas,
Em nome do sorriso comportado e vão.

Tenho cá pra mim que Dona Vanda e
Seu Nestório, Dona Glória e Sinhazinha,
Inda hão de realizar, num dia desses lá,
Que mais vale um lagarto lanhado, de
Fratura exposta no peito, a externar seu
Lamento dramático, seu fundo gemido
Sorumbático, do que a triste sombra
De um homem de olhar desbotado
Bebendo calado na mesa de bar.

(Poema escrito em 2017)

Detox

(Para o Marcelo Mirisola)

“We’re gonna eat you up”, me diz o rato, todo lordão inglês de casaca, estalando as patinhas na mesa. Faz um barulho que parece um assoviozinho, fic-fic, como se risse da minha sanidade pouca. Logo que cheguei à festa, tomei o que me ofereceram: um ácido, parece. Não conheço bem a nomenclatura. Esses pivetes chamam ácido de doce. Ou de bala, não sei. Não sou dessa época.

Tenho cinquenta e dois anos e mais nenhum amigo da minha idade. Conheço um povo esparso, todo mundo mais jovem: a meninada da academia, umas amizades de bar, essas coisas. A festa rola na casa de um finta chamado Fagner. O povo chama o cara de Fafá. E aqui eu estou por dois motivos. Primeiro, porque gosto de me drogar. Depois, porque vai vir a Ju, minha professora da academia.

A Ju tem vinte e oito anos. Mesmo eu podendo ser o abuelito dela, joguei a sorte ao contratar a moça como personal, durante um mês, com o pretexto de me preparar para a São Silvestre. Ahã. Um dia, a Ju fez um alongamento comigo, vai vendo. Toda mão, a gente se encontrava na porta da casa dela e dali saía correndo. Mas, naquele dia, ela me chamou para entrar porque estava atrasada. Disse que ainda queria terminar de dar um “alongão”. E que aproveitaria para me ensinar a fazer um suco “detox”. Vinte e oito anos, cara.

Só digo isto. No alongão, ela estava de yoga pants. E eu estava in love com o conceito de conforto dessa juventude. Mas a Ju me via como um cliente, só isso. “Quer mais suco?”, ela perguntava por educação. “Vou aceitar, sim, está uma delícia”, eu respondia, todo tiozão sabedor das social skills. Podia tomar um galão daquele suco com gosto de grama mijada, só para ver a Ju caminhar pela cozinha.

Bueno, mas agora a porra é que tem um rato em cima da mesa de centro da casa do Fafá. O roedor bretão de casaquinha e pincenê me avisa que eles, os peludos, jantarão a humanidade. “We’re gonna eat you up”. Doce ou bala? Whatever. Interessa que bateu.

A garrafa de cerveja long-neck na minha mão parece que respira, engorda-emagrece, refletindo verde a luz do sol da tarde. Tem um prato de carne impensável na minha frente, assada pelo Batata, o churrasqueiro de coque samurai, moleque da academia de uns vinte e cinco. O tonel de loiras de pescocinho verde está bufando de tão cheio, cerveja gelada nunca é demais. Cadê a Ju, porra?

Quando disse para ela que tinha quarenta e nove anos (dei um gambito da rainha, para cair na dezena de baixo), ela falou, “não parece”, e me deu um sorriso lindo. Quanto a mim, digamos que faço um estilinho ok, desquitadão do rock. Não cola muito. “Own, parece um dinossaurinho fofo!”. Mas eu muito me contenho. As lubricidades ficam bem escondidas nas ideias, sou bem visto pela moças. “Um tiozinho do bem”, diriam elas, tomando suco detox. Eu entendo e respeito.

O rato sobre a mesa lê o Gita para o Ganesha, que está enquadrado na parede do Fafá. O Batata pergunta se o idoso aqui quer maminha, eu rio do duplo sentido. “E a galera, Bata?” (Porra, como sou cafa!) “Ah, já tão vindo. A Ju mandou recado dizendo que foi comprar cerva e já vem”. Chega outro moleque, com maconhas. Tem uns vinte anos, de nome Gabriel, como metade dos meninos da idade dele.

Gabriel não sabe cochar um banza. Molecada do século passado sabia. Eu sei. Sou um mestre zen nessa arte. “Deixa que eu aperto, guri”, digo a ele, com ar de Rui Barbosa canábico. Conto a história da maconha da lata. Por que, meu deus? Canseira. Tenho três filhos, já tive meu quinhão. O moleque fica todo admirado da perfeição do banzai. Estendo para ele, que acende. Sabe de nada. Tenho dó do moleque. Vai se foder na loucura química, e se julga imortal, como todo guri de vinte anos.

Ácido, maconhota, cerveja. Cinquenta e dois anos, rapaz. Dá cinco minutos, a Ju chega, toda esvoaçante na minissaia. O vovozinho trinca os molares. Ela me dá dois beijinhos, porque é do Rio. “Deixa ver o que você trouxe”, eu digo, vasculhando com os dedos a sacola da loja do posto. Cato mais uma cerveja. O rato levanta os olhos do Gita e me censura em silêncio.

“Senta aqui, Ju, toma uma comigo”. Ela me lança um olhar compassivo, quase que de cuidadora de idoso. Diz que já senta, que antes vai “fazer xixi” e dar oi pro pessoal. Gabriel está rindo como um otário do meu lado, moleque idiota do caralho. A Ju sai do banheiro, e eu só olhando, olhando, podia olhar para sempre. Mas ela está tão excitada com a festa que nem nota meu olho em brasa.

Tenho uma espécie de Tourette de putaria na minha cabeça, é isso. Fico falando sacanagem para mim o tempo todo. Por quê? Porque a vida é um cu do tamanho dos quasares, amigo, e a gente tem que se distrair. Minha Tourette saliente é daquele tipo que faz a gente debruçar na janela do carro quando vê uma moça bonita na calçada. Ô lá em casa”, diz a Tourette, mas só eu escuto a voz dela.

A Tourette é muito minha, minha para mim mesmo. Para os outros (as outras), eu sou um tiozinho do bem. “Quero mais é rosetar”, diz minha Tourette, já me prevendo velho, velho mesmo, sentado ao sol com a salsicha mole no meio das pernas. “Sanskaras”, diz o rato, todo empertigadinho na sua leitura das escrituras.

Lá vem a Ju. Senta do meu lado, deusa, toda a história da gostosura mundial conjuminada numa só mulher. Bebemos a cerva. Ela diz que foi muito bom a galera se reunir para a “baladinha de fim de ano”. Mostro um filme de gatinho no celular. “Own, que fofo!” Falamos sobre gatos, puta assunto boçal.

“Gata, eu só quero te fazer mulher”, diz minha Tourette, bem baixinho no meu cérebro, porque quando apaixonada ela fica assim meio Wando. Ah, como eu queria explorar o que tem debaixo dessa sua saia… “Ai, tio, que tesão!”, sua Tourette safadinha diria para a minha. Ah, Juzinha Tourette, formosura das galáxias, amor da minha vida!

Mas, não, velho. Claro que não. Muito pitu para minha rede de arrasto furada. Ju tem mais o que fazer, se levanta para “fofocar com as meninas”. O Gabriel do meu lado, moleque infeliz da porra, está a meio caminho de vomitar no banheiro. O Batata parece que tem uma pelota de bosta de cavalo naquele coque dele. E o rato, sobre a mesa do Fafá, não crê que eu vá muito mais longe nessa vida.

Um suspiro com o peso de mais de cinco décadas mal vividas move meu diafragma ancião. Nada me resta. Finjo que não vejo minhas desilusões entornadas no chão da casa do Fafá e saio à francesa. Melhor.

Indo para o carro, ainda ouço o fic-fic do rato me chamando. Eu respondo: “Not today, bitch”. Saco a pistola no porta-luvas da caranga: “I’m the one who’s gonna eat you up!” Descarrego o pente no roedor, que morre com o nome de Rama nos lábios.

A mim, só me resta a estrada da vida, cínica, à frente. “Mete o pau”, diz a Tourette. E eu meto mesmo. Até o talo.

(Conto escrito em 2017 e atualizado em 2021)

Chegou a hora do evasée, fairlane 500, baby

Confortável

A pobre da zona de conforto tem sido infamada pelas gentes. Eu, por mim, viveria nela. Ué. E queria que a entrada na zona de conforto fosse assim:

…..

É de manhã. Acordo na confortabilíssima poltrona da primeira classe do mais moderno e silencioso jato já construído. A mais linda das aeromoças sorri para mim e diz:

– Bom dia! O senhor entrou na sua zona de conforto! Tudo aquilo que o senhor chamava de mundo, de vida, tudo aquilo foi só um sonho ruim, que agora acabou.

– Puxa… obrigado. Você quer dizer que aquela história de crise, de terrorista, de bomba H, de mudança climática…

Ela abre um sorriso fantástico:

– Tudo um sonho ruim que acabou, bebê!

– Nem político existe?

– Nem político existe! Olha que maravilha! Pode ficar relaxado… Vou buscar uma champanhe para o senhor e já volto.

Nessa hora, percebo que posso beber de novo. E que meus pés já não são mais tortos, e que meus joelhos não são mais feitos de aveia, e que eu não preciso mais de óculos para enxergar, nem de remédio para viver, porque não sou mais um cara melancólico, e estou milagrosamente 15 quilos mais magro e 15 anos mais novo.

A aeromoça mais linda do planeta volta com o champanhe mais maravilhoso já produzido na terra. Começo a beber e sinto aquele delicioso relaxamento do álcool.

Olho em volta me sentindo bem como nunca me senti na vida. É quando vejo que, ali na fileira ao lado, está o Tatu, da Ilha da Fantasia, tomando um bourbon e comendo um podritos qualquer, que ele cata do pote com sua mão gordinha. Ele vira para mim e diz:

– E aí, fera? Sei que o voo é chato pra cacete, mas guenta aí que quando a gente chegar lá vai valer a pena de um jeito que você não consegue nem imaginar de tão bom que é. Cheers!

A aeromoça mais linda da história (que, a essa altura, já está a fim de mim) me entrega o menu, uma manta fofinha e um folder que traz escrito na capa: BEM-VINDO À SUA ZONA DE CONFORTO.

Abro o folder e fico pasmo em descobrir como minha vida será absurdamente confortável depois que eu pousar na Ilha da Fantasia (não posso contar para vocês porque assinei um termo de confidencialidade). O Tatu percebe o meu assombro e diz:

– Não falei, fera?

O comandante me cumprimenta pelo alto-falante da aeronave, manda mais uma garrafa de champanhe com os cumprimentos da casa.

A aeromoça mais linda do universo me conta que também está indo morar na Ilha, olha só que coincidência. O céu é de um azul de brigadeiro. E agora tenho certeza que da minha zona de conforto eu não saio nunca mais.

(Post publicado em 2017)

Eu, a moça e Tatu: loucura na aeronave

Empreita

Numa única tarde, 
Fizemos luxuosa mansão
E meia dúzia de castelos,
Todos respingadinhos
À Barcelona, imponentes;
Colunas, voláteis volutas,
A rebrilhar ao vento veranista,
Entre quatro muquinfos
De   crustáceos  “corruptos” 
(aqueles de fisgar robalo)
Parafusados na areia molhada
Da praia de Juqueí. 

(Poema escrito em 2018)

O despertar da força

Eu ainda não vi o episódio 7, mas já imagino exatamente como seja…

Han Solo, na madureza, deixa de lado a pilantragem. Vai para uma prainha a muitos parsecs de distância e passa a viver da pesca artesanal. Sua esposa, Leia Organa, passa o dia na lida da casa, o mesmo vestidinho roto, o mesmo avental puído, toda gordota e entediada da vida. Ela frita postas de cação e chama o marido: “Ô, véio, o rancho tá servido”.

Quando o stormtrooper arrependido e a gatinha da galáxia o encontram, Han está justamente almoçando, acocorado na frente da casa. Mexe com os dedos calejados o fundo do prato de peixe, farinha e feijão, a barba grisalha por fazer, o queixo brilhando da gordura da comida. Eles lhe contam sobre um vilão novo, tal e coisa. Mas Han quase não fala. Sublinha o enfaro estalando a língua na busca por um fiapo de peixe preso nos dentes. Como todo homem vivido, sabe que a vida não vale a pena. Para se livrar dos visitantes, topa pegar a velha jangada e levar a dupla até o planeta pantanoso de Dagobah, onde Luke Skywalker então eremita.

No reencontro depois de tantos anos, os dois velhos amigos se cumprimentam num silêncio constrangido. Han descobre que ninguém vira herói impunemente: o lado sombrio uma hora acha o veio por onde se desopilar. Luke está bêbado da pinga que ele mesmo produz mofando algas do pântano. Vive assombrado por fantasminhas holográficos e pela imagem de seu pai, lanhado e fumegante sobre o magma endurecido de Mustafar. Traz fundas olheiras, os dentes desconjuntados e aquela belíssima pança de iogue, no que Mark Hamill faz jus e leva prêmio.

O velho Jedi vê que a gatinha da galáxia é bem gatinha mesmo, mas agora é tarde demais para ele. Envergonhado, Luke saca seu sabre de luz e comete um harakiri ali mesmo, na frente de toda a adolescência mundial, na plateia a comer combo de pipoca e coca zero…

Tipo isso.

(Post publicado em 2015)

A vingança dos Sith

O irônico é que na escola, na época do primeiro filme, o chamavam de Boba Fett. Era um trocadilho infame sobre “o bobo que fede”, já que ele tinha mau hálito. Tinha bafo nosso amigo, coitado, e a turma em questão era fã precoce de Star Wars. Precoce porque tinham apenas 13 anos, e era o ano de 1979. Como disse, faz tempo.

Boba Fett se chamava Paulo. Na verdade, tinha o nome de Paulo dos Santos Madeira Júnior. Mais tarde, já no colegial, ficaria famoso como Paulo Punheta. Mas estamos em 2005, e agora Punha Júnior, o inglório Boba Fett, está numa fila para assistir Episódio III, a Vingança dos Sith. Absolutamente chapado de maconha, aliás, porque fumou uma base a caminho do shopping.

Em volta, o mar de adolescentes, mais alguns aposentados, desempregados, frilas e desocupados. Boba sente uma agulhada de compaixão pelos guris ao redor. Ele sabe, ele os vê. Vivem aquela bobagem de se mostrarem expertos em Star Wars, se orgulham de citar segundidades menos óbvias da saga. Querem porque querem se dizer ninjas da nerdice, suspiram por Leia, a tia que era gatinha em 77. O combo todo.

Madeira Júnior ali, com aquela dor carcomida no peito, roído de compaixão pelos guris e por si mesmo. Se sente culpado e condoído. Com sua vida idiota, com seus 39 anos, farto de seus apelidos, farto do onanismo, com os dentes fodidos de tanto chupar halls preto, estacionado na fila para ver Episódio III.

Os jovens só querem avançar, reclamam da fila que ainda não havia sido liberada. Paulo Punha, num êxtase sado-budista, cagado com a cabacice dos moleques, se entende sabedor das ways of the Force. A fila anda, loucura. Velho Punha de pipoca XXXL na mão.

Lá vem o filme. E vem tão mal amarrado quanto esta historinha idiota que estou escrevendo. O filme é diferente do que Punha imaginava. Episódio III lhe parece uma desgraceira sem sentido e sem porquê. Quer avisar ao mundo. Mas como?

Os moleques, na saída do cinema, lhe parecem androides duma mesma linha de montagem. Saem dizendo que acham o filme o máximo, que se marcar é o melhor de todos, tá ligado, velho. Paulo, ali no meio, imenso, grisalho, falido, ele berra enfim como um wookie enfurecido:

– Seus bostas! Esse filme é a coisa mais triste e deprimente que já se filmou!

Os moleques se voltam para Boba Fett com horror. Mas o shopping não é tolo, como Boba, e tem lá seus paranauês. O segurança vê Paulo Madeira gritando, saca o cassetete tal qual sabre de luz. Punha não desiste fácil. Berra com as veias no pescoço.

– Vocês não estão vendo? Esse Episódio III é igual a vida de vocês, essa gula troglodita de culpa, essa monstruosidade, esse guri Skywalker sem membros, fumegante e tostado, isso tudo, esse ego ridículo de vocês!

O segurança do shopping não tem dúvida. Parte pra cima do velho Punha, mói o filho da puta no cassetete de borracha, padrão Brasil. Paulo cai murcho como um Obi-Wan. Sob as borrachadas do storm trooper, ainda arruma força para gemer seu epitáfio,

– Escrevam aí, seus porras, seus curió do caralho! Esse filme é o mais deprimente e inverossímil da história! Quem nem a vida cagada de vocês!

Uma borrachada na têmpora foi o que salvou o dia dos adolescentes do shopping, já aflitos como um Hayden Christensen todo lanhado em Mustafar. Paulo, nosso bobo fedido, seria declarado morto logo depois.

Quanto ao segurança do shopping, este foi efusivamente elogiado pela chefia. Dias depois, promovido a Sith Júnior ao som da marcha imperial. Isso, essa mesma que você pensou agora. Fim da história.

(Conto escrito em 2005, e atualizado agora em 2021)

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Bertinho

Todo mundo só chamava o meu avô de Bertinho, apelido para Umberto (assim com U, que eu achava brega até conhecer o Eco). Às vésperas do casamento, minha avó Júlia bordou as iniciais J & A no enxoval. Casou crente que o nome do meu avô era Alberto.

A curra de Schopenhauer

“Holy mother of God!”, exclamei de mim a mim mesmo, quando, baixando da boca ao balcão o cálix de aguardente, como a realçar meu espanto, vi assomar ao bar o filósofo defunto.

Exibia sua titânica cabeleira de palhaço, que deveria ter ali, se mal não o julgo, uns dois metros de envergadura, talvez mais, pois que o cabelo chegava na passagem a lustrar o umbral do vastíssimo arco de entrada do botequim. E não só a cabeleira.

Arthur Schopenhauer irrompeu como um Arrelia, como um Torresmo, como um Cocadinha tedesco e profissional, de gola larga, sapato imenso, e calça amarela brilhosa. Faltava-lhe o nariz vermelho, é certo; mas só e mais nada.

– Puta que o pariu, que calor! – bufou o filósofo, mandando o portuga descer um chope a zero kelvin.

Eu ali, romântico de alcaloide, num bar carioca do Largo do Machado, logo abri conversa, instando-o a discorrer sobre a vontade e a representação, mas Schopenhauer desestimulou-me peremptório.

Demonstrou seu desgosto com mil e um caretalhaços, cacarejando como uma perdiz no cio, dando rodrigueanos arrancos de cachorro atropelado, maldizendo Gutemberg até a vigésima geração por lhe permitir a difusão de ideias pretéritas. Cuspiu, soltou traques, urrou para o céu. Eu – de chinela, pinga, camiseta rasgada, short do Vasco furado no sul e dente faltante – achei por siso não insistir.

– Vamos falar de política! – ordenou Schopenhauer, depois de virar o chope, limpar o bigode branco de escuma no punho largo da farda de palhaço, e solicitar um segundo ao portuga.

– Sim, senhor – obedeci.

– O Senhor está no céu, não fode. Eu agora larguei mão da filosofia e me atirei nos braços da doxa. Falemos de política. O que tu achas da Dilma?

– Bom, penso que o cabelo dela parece um capacete, não sei se isso convém a uma presidenta que…

– Exato! Um capacete! Uma amêndoa hipertrofiada talvez, um cocuruto de cajado, uma bola de boliche com quepe, não, não sei bem, quiçá um bulbo platinado, um suricato ruivo…

– Um Pitta do Lula?

– Um Pitta do Lula, bravo! – Schopenhauer ficou tão feliz com o meu palpite que virou o chope e o arrematou meu cálix com uma talagada, para depois continuar.

– E que dizes do Serra?

– Bem, doutor Schopenhauer…

– Doutor o caralho!

– Oh, me descurpe, seu Schopenhauer, isso não vai se repetir – eu baixava os olhos, apertava nos dedos as abas de um chapéu de palha invisível, arriado pela altura do peito. – Do Serra eu acho que ele tem uma cabeça de ovo, de modos que não sei igualmente se isso seria conveniente a um…

– Com efeito, cabeça de ovo! – Schopenhauer virou os olhos no delírio que me pareceu de crack mofado. – E o que mais me intriga nessa história é de onde vem a fábrica de meia-careca – completou, virando-se para o dono do bar: – Ô, portuga, desce outro!

– Meia-careca? O senhor me perdoe a ignorância; poderia me instruir sobre o tema?

– Meia-careca, porra! Não te lembras da última eleição, em que era permitido aquele outdoor expandido, para o político ficar com um cabeção maior, extrapolado; uma metade do rosto no espaço normal do outdoor, a outra metade, da testa pra cima, num hediondo avancê feito de madeirite?

– Acho que lembro…

– Ora bem, como o Serra não tem cabelo, a parte de cima do avancê era só um meio-ovo careca cor de pele. Dava calafrio e dava engulho. Mas queria muito saber qual é essa fábrica que faz meio-ovo de pele…

– Puxa, muito interessante, dout… seu Schopenhauer – e, desta feita, eu pro Manuel – Ô, portuga, pinga mais uma aqui, véi.

– Por isso te digo, guri, que essas são as coisas que muito amiúde me assombram a mente lá no céu… Mas sabes o que acontece a todo político depois que morre, não? Digo, todo político; sem exceção ou cláusula de barreira.

– Não. O quê?

– Deus os transforma em cabras, para sempre; cabras com nervos desencapados, ultrassensíveis. E os coloca num curral apertadíssimo, condenado eternamente à mais funda e fria escuridão. As cercas do curral são farpadas e eletrificadas; os acidentes, como podes imaginar, são inevitáveis e frequentes. Então, ficam lá, balindo em desespero, tomando descargas tão pungentes como só Deus pode conceber, obrigados a comer e a beber, como único pasto e linfa, as bostas e os mijos uns dos outros.

Schopenhauer, naquele momento, deixou-se exibir por um milissegundo a famosa carranca terrífica, porém mais do que logo a desfez. Rasgou um riso bestial, escoltado pelos dois flancos de sua infinita cabeleira de palhaço, enquanto ritmava as ancas em vai-e-vem, como na curra a um político imaginário.

Eu, de mim, confesso que folguei à larga em saber o destino final dos homens públicos, não posso mentir. E passamos o resto da tarde assim, eu e o filósofo, rindo como umas bestas satisfeitíssimas, bebendo num ritmo que fazia o portuga suar. Foi lindo.

(Conto escrito em 2010)